O bom carnaval de 2017 em Olinda

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 02/03/2017 03:00

Quando levantei às 5h do sábado de Zé Pereira, doido para sair cedo para o Galo, leio no meu WhatsApp duas mensagens assustadoras. Ei-las, respeitando suas próprias redações: (1) “GALO SEM POLÍCIA! A polícia de Pernambuco acaba de deflagrar um movimento de paralisação das atividades durante o galo da madrugada. Devido à intransigência do governo do estado. Repassem para todos os grupos, parentes, amigos e conhecidos”; (2) “As BR’s estão bloqueadas com caminhões. Assalto na 232 e na 101”. Pensei: deve ser mentira de gente inimiga da alegria, da amizade, da confraternização, das tradições, da linda música pernambucana. As mensagens provinham de duas amigas minhas, merecedoras, ambas, de crédito. Uma de Olinda, a outra de Garanhuns. Não poderia ser coisa delas, matutei. Fui olhar a Internet – nada. Minha decisão foi então: sairei normalmente com Vera para o Galo, como nos últimos 20 anos. Peguei meu carro; fomos nele. Cidade tranqüila em toda parte. Policiamento educado, eficiente. Clima geral de descontração. Levei meu celular, contra a vontade de Vera, que deixou o seu. Não houve problema nenhum. Não vi nem sequer crise de ciúmes entre marido e mulher!
Foi assim o carnaval inteiro – no Recife, aonde vou apenas para o Galo, até 11h, e em Olinda, onde passo o resto da folia. Aliás, a festa de Momo em Olinda pode ser considerada um marco do prefeito Prof. Lupércio. Começa que o orçamento para a ocasião foi a metade do gasto do ano passado, e o número de adesivos para carros trafegarem no Sítio Histórico teve apreciável corte de 6 para 3 mil! A prefeitura não gastou, por outro lado, com exageros de decoração, dispensando adereços sem qualquer serventia e de indesejável impacto ecológico. Ela acertou admitindo que o valor da folia é dado não por enfeites, e sim pela alegria dos carnavalescos. Alegria essa que, a meu ver, foi prejudicada pelo mantra cansativo, sem foco, raivoso e vazio do “Fora Temer”. Meu bloco, o Eu Acho É Pouco, surgido na oposição à ditadura e no qual saio desde 1978, era mais alegre no regime militar (do qual tenho motivos pessoais para lembrar com dor) do que foi neste carnaval. O que significa “Fora Temer”, ainda mais para gente que o elegeu duas vezes?! Não era a hora de fazer comício. Isso não é assumir luta política – ainda mais no meio de tanta gente embriagada. Ter um projeto alternativo, consistente, com líderes à altura é que é a rota a ser traçada. Sem sectarismos.
A organização geral do carnaval em Olinda esteve muitos níveis acima do que vivenciamos nos últimos anos da triste gestão do PCdoB (Luciana Santos, em 2011, começou muito bem). No carnaval de 2017, não havia carros circulando no meio da multidão. As barracas, mais arrumadas do que antes, ficavam fora da pavimentação. Lixo se recolhia com rapidez. O som dos focos não perturbava tanto quem não queria participar da festa. E os blocos cumpriram horários, como há muito não se via. Quando peguei a Ceroula, no sábado, ela já estava na rua. E que lindo espetáculo, o dessa troça tradicional com sua orquestra incomparável! Igualmente, não deu para chegar em Guadalupe às 11h da terça-feira. Os bonecos gigantes já tinham saído, com suas 5 orquestras do melhor frevo de Pernambuco, quando fomos a seu encontro. Fizeram um desfile de que pude participar até a Ribeira, quando, normalmente, não dava para passar da igreja do Amparo. Violência? Não tenho o que contar. Só vi gente alegre em todo o espaço do perímetro do Sítio Histórico. Policiamento digno de elogios. Daí por que foi tão lamentável o boato de que não haveria policiais na rua. Gente má faz isso. O povo do bem se diverte, mesmo em meio às agruras por que passa. Sem ofensas, querendo amar. Apenas para ser feliz nem que seja numa horinha.
PS- Eu já tinha escrito este artigo quando soube de grave incidente de violência na Rua da Boa Hora, envolvendo uma senhora, Dona Dá, líder da comunidade local e organizadora ali de belo encontro de bois nas Quartas-feiras de Cinzas. O episódio, resultante de ação de malfeitores, se deveu à falta de policiamento no local. Essa reclamação, ouvi de mais pessoas que sentem a necessidade de presença maior da polícia em Olinda.

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