Escravos fugidos

Breno Perez Coelho
Advogado

Publicação: 01/03/2017 03:00

Desde a infância, nutro especial interesse por fatos históricos e pela história de Pernambuco. Talvez por isso, tenho o hábito de ler cotidianamente nas páginas do Diario de Pernambuco a coluna Diário na História, na qual se publicam pitorescas notícias de entre 25 e 175 anos atrás. Notícias da primeira e segunda guerras, informes publicitários e até a curiosa forma ortográfica da época - tudo aguça minha curiosidade matinal. Ao mesmo tempo, contudo, alguns anúncios me chocam e, não raro, entristecem; em especial, aqueles referentes à compra, venda e captura de escravos.

Há 150 ou 175 anos, eram quase diárias as publicações de busca e oferta de escravos, em meio à negociação de cavalos, sítios, etc. Entre as últimas que li: “fugio uma escrava de nome Joaquina, creoula, levou vestido de xita fina escura...quem a pegar leve a fora de portas n.112”; “Compra-se escravos de ambos os sexos, com officio ou sem elles, até idade de 20 anos;quem os tiver dirija-se a rua do Vigário N.21”; “Compra-se um escravo trepador de coqueiro, sem vicio nem achaques...”; “Vende Engenho Caxoeira na freguesia de Ipojuca, com  escravos, animaes e tudo o mais que nelle existe...”

Recentemente, em fraterna conversa com amigxs da Faculdade de Direito do Recife, debatíamos sobre a necessidade, ou não, de políticas de cotas raciais nas universidades públicas. A leitura diária dos anúncios citados me faz reafirmar sempre que sim! E vou além: precisamos de mais e efetivas ações afirmativas e reparatórias. Precisamos falar sobre os crimes do passado e punir célere e exemplarmente os crimes de racismo do presente. Resta imperativo que o tão falado “estado laico” deixe de ser um ornamento retórico e assegure, na prática diária, a plena liberdade e igualdade às religiões de matriz africana.

Por fim, precisamos falar do racismo que está dentro de cada um de nós. Fazer uma honesta autocrítica e tentarmos melhorar, na condição de seres humanos, para avançar rumo a uma sociedade mais igual, mais digna, livre de preconceitos. Infelizmente, ainda são frequentes as notícias de crimes motivados por racismo ou episódios narrados em redes sociais que revelam odioso preconceito de raça e cor.

Oxalá as futuras gerações reparem as “heranças da escravidão” e rompam com os modernos grilhões. E em tempos carnavalescos, que o anúncio abaixo não passe de página infeliz da nossa história: “Escravos Fugidos – Na quarta feira de Cinza,à noute, desappareceu uma escrava crioula, de nome Ludgera, baixa reforçada, de idade 15 annos; quem a appreender elevar ao sítio de L.A. Duboureq, na Estancia, será recompensado”.

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