Do tamanho da cama de mamãe

Doris Gibson
Jornalista

Publicação: 01/03/2017 03:00

Sendo portadora de um nome pouco comum, tenho o privilégio de ter uma amiga de infância homônima. Nascida em Paudalho, minha amiga Doris chegou a Olinda pela primeira vez no início da década de 1950 de mudança com a família, diretamente para o sobrado da Prudente de Morais onde vivem até hoje.

Na azáfama da arrumação, enlouquecida com as crianças peralteando entre caixotes e móveis desarticulados, D. Delza, a matriarca, ordenou às babás que levassem os pequenos para ver o mar. Era só descer a ladeira direto e cruzar o largo da Praça do Carmo até a balaustrada detrás dos Correios em toda segurança, pois sequer trânsito, então, existia.

Chegando ao destino, as crianças trataram de encarapitar-se à balaustrada, completamente extasiadas: nós, recifolindenses, que nascemos e nos criamos nas fímbrias do mar, não fazemos ideia do impacto que é ver o mar pela primeira vez.   Ninguém teve palavras para expressar o que via e sentia até que Doris, por volta dos três anos de idade, vaticinou: “Eita! É maior do que a cama de mamãe!!!”

No que foi rebicada pelos adultos e crianças maiores presentes, adquirindo a fama – injusta – de abobalhada.

Faço, tardiamente, a defesa de Doris; na verdade ela foi precisa na comparação, pois o tamanho emocional da “cama de mamãe” é imensurável. Trata-se do lugar mais fofo, querido, cheiroso e seguro de um lar; uma verdadeira extensão do útero materno; e não só para Doris, mas para todas as crianças que, noite sim, outra também, esbanjam chantagem sentimental para conseguir aconchegar-se à “cama de mamãe”. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra.

A “cama de mamãe”  é o centro gravitacional do âmbito caseiro que, a exemplo dos círculos concêntricos formados pela pedra atirada ao lago, expande-se nas situações, móveis e paredes de um lar verdadeiro.

Lembro de mim, quando criança menos pequena que Doris ao ver o mar, era a primeira a escutar ao longe, a batida do Maracatu Dois de Ouro que fazia, aos 6 de janeiro, sua primeira sortida do ano afim de angariar fundos, de porta em porta, para o desfile no carnaval. Todos os anos, repetia-se a mesma cena na minha casa; eu anunciava: “o Dois de Ouro está vindo”; ninguém, além de mim ainda ouvira, e na delicadeza peculiar ao adorável convívio doméstico, xingavam-me de doida. Vagarosos minutos depois, todos “endoideciam”, pois passavam a ouvir também os tambores do maracatu. E até hoje eu não entendo por que, quando o Dois de Ouro chegava à altura do Clube Atlântico, ia me dando um pavor e, no momento em que a agremiação passava – e parava – na porta da minha casa, eu estava acachapada debaixo da cama de mamãe, com a zabumba do Maracatu Dois de Ouro explodindo no meu coração.   

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.