Um mar de sargaços

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 24/02/2017 03:00

Viver no Brasil hoje é como mergulhar num mar de sargaços. Existe coisa mais incômoda de que mergulhar num mar de sargaços? Existe coisa mais incômoda de que viver no Brasil hoje?

Quem foi à praia de Boa Viagem domingo sabe bem de que estou falando. Já não gosto do sargaço quando forma aquele caminho de algas na areia, muito menos ainda quando forma uma massa flutuante de algas dentro d´água.

Tenho medo de pisar nas algas porque nunca se sabe o que elas escondem dentro de seu emaranhado e, se mergulhamos no mar, o sargaço entra no biquíni, se enrosca no cabelo, gruda na pele e de espelho do céu, o mar vira sombra escura e viscosa. E que mau cheiro!

Viver no Brasil hoje é como mergulhar num mar de sargaços. Como disse o escritor Raduan Nassar, no recebimento do prêmio Camões de literatura: “Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios. Muito sombrios”.

Tem coisa mais incômoda de que um candidato a ministro da Corte Suprema plagiador, truculento e servil aos interesses daqueles que agora o sabatinam e que amanhã por ele serão julgados?

Tem coisa mais incômoda de que um Supremo que julga com dois pesos e duas medidas, e que dias atrás legitimou a concessão de foro privilegiado a um político citado mais de trinta vezes em uma delação premiada da Lava Jato?

Tem coisa mais incômoda de que um presidente golpista, com um índice de reprovação de 62%, cujo boneco gigante não vai sair no carnaval de Olinda por receio de que seja surrado pelos foliões?

E um ministro da cultura que dá piti num prêmio internacional, desrespeita o momento do agraciado e diante das vaias, dispara: “ Esse histrionismo oposicionista evidentemente tem seus dias contados”.

Nem a primeira dama se salva! De bela, recatada e do lar mostrou também o seu lado “mar de sargaços”, e se envolveu numa história esquisita de fotos, vídeos e conversas impublicáveis.

Até o presidente do Banco Mundial está incomodado. No programa Noite Total, da Rádio Globo e CBN, Jim Yong Kim lamenta esse mar de sargaços em que o Brasil se transformou: “É a primeira vez que vejo um governo destruir o que está dando certo. Nós do Banco Mundial, o G8 e a ONU recomendamos os programas sociais brasileiros para dezenas de países, tendo em vista os milhões de pobres brasileiros que saíram da extrema pobreza nos governos anteriores a esse”.

Li que a apanha do sargaço é uma atividade secular que consiste em recolher os sargaços do mar para utilizá-los como fertilizantes nos campos agrícolas. Acontece que os fertilizantes, não obstante o seu mérito na agricultura, podem causar poluição de solos e cursos d´água. Logo pensei em nós, brasileiros, apanhando os sargaços do mar sujo da política, para jogá-los na lata de lixo da História.

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