Trechos dos meus caminhos

José Carneiro
Juiz e professor

Publicação: 24/02/2017 03:00

Apresento-me. Primeiro, porque não se gosta de quem não se conhece. Depois, porque quem não se conhece não se comunica. Por fim, porque precisamos do convívio de um com outro para uma vida saudável. Assim, torna-se necessário dizer quem sou.

Sertanejo pernambucano. Nasci em Custódia, pequena cidade do Moxotó, onde abri os olhos para as belezas do mundo e vivi os melhores anos de minha vida. Entre as coisas comuns ao tempo escrevi poemas, compus canções e fiz serenatas ao clarão da lua cheia para as moças namoradeiras. Ainda hoje, mesmo longe e dela desligado, na canseira da velhice e no pesar da saudade sinto a sua presença como se o tempo não tivesse passado. Amo a natureza, especificando as plantas e os animais, as flores e os pássaros. Gosto de tomar banho de chuva, de ouvir Beethoven, Mozart e as valsas vienenses de Strauss ao sabor de um queijo suíço e de um vinho francês na companhia de pessoas inteligentes. Devo muito ao meu pai, seu Apolônio, homem simples, mas de uma sabedoria incrível, que me cobriu de afeto e não deixou que nada me faltasse. À minha mãe, dona Maria de seu Apolônio, mulher humilde e de bom coração, devota de Nossa Senhora do Desterro, de quem herdei um toque de espiritualidade que me tornou um religioso, crente de que o homem sem religião é um homem sem fé e acreditando na imortalidade da alma e na eternidade de Deus. E, por derradeiro, à minha irmã mais velha, Osminda, que me educou e tudo fez para que eu conquistasse um lugar ao sol. De mais ninguém recebi ajuda material. Fiz-me sozinho, com as bênçãos de Deus.

Formado em Direito e licenciado em Línguas Neolatinas fui professor, advogado, promotor de justiça e juiz de direito, desempenhando as funções com dedicação e entusiasmo. Sou membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Por onde passei procurei deixar a marca do meu comportamento social e cívico. Respeito todas as profissões e tenho particular admiração pelos médicos e músicos, embora reconhecendo que só os poetas criam. Os demais fazem descobertas e aperfeiçoamentos. Assisto às manifestações do universo, notadamente do amanhecer e das tardes com a emoção de um poeta e de um pintor. Prefiro o campo à cidade. Sou um velho jogador de gamão.

Excetuando Custódia, Pesqueira e Caruaru foram as cidades que mais contribuíram na realização do meu ideal e são os lugares sempre presentes no cotidiano do meu viver.

Pesqueira foi o meu primeiro alumbramento. A revelação do meu espírito. Nela comecei a ver um mundo novo, sentir suas formas e admirar suas belezas. Lá, em regime de internato, concluí o curso ginasial no Cristo rei, ginásio exemplar, considerado na época um dos melhores estabelecimentos de ensino do estado. Ela foi a base da minha formação moral, religiosa e intelectual. Fui o orador da turma. Não a esqueço. Todas as vezes que passo à sua margem me arrepio, meu coração bate mais forte no peito e eu sinto uma enorme saudade do tempo mais venturoso da minha vida. Ela, que um dia Walter Ramalho, meu colega de classe no Ginásio Cristo Rei, em melosos versos, a chamou de Doce Pesqueira, permanece dentro de mim com a mesma intensidade.

Caruaru, cidade encantadora e de fortes tradições, rica em folclore e artesanato, maior centro de Artes Figurativas das Américas, exaltada pelos bonecos de Vitalino e por sua famosa feira, imortalizada por Onildo Almeida. Onde me encontrei comigo mesmo, morei por mais de vinte anos e vivi como Juiz de Direito e Professor da Faculdade de Direito, numa missão apostólica. Durante todo aquele período lecionei na cadeira de Processo Civil e coordenei o Curso de Prática Forense (COEPRA) – Curso de Orientação, Estágio e Prática Advocatícia – um convênio celebrado entre a Faculdade de Direito e a Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de Pernambuco, cujo objetivo primordial era assegurar a inscrição definitiva do estagiário na OAB. Os alunos vibravam com o curso, que era um orgulho da faculdade e uma vaidade dos estudantes. Respondi por sua diretoria e paraninfei duas turmas. Conto com uma legião de advogados que dele participaram e são queridos ex-alunos e amigos solícitos. Sou cidadão honorário de Caruaru e membro da Academia de Letras. Ante o que deles ouvi dizer, lamento não ter conhecido Chico Porto, Major Sinval e Nelson Barbalho. Não poderia encerrar a apresentação sem dizer que não é todo dia que Deus concede a uma pessoa com mais de oitenta anos de idade a graça de escrever dois livros. A Baraúna e Sabedoria do Tempo, que constituem a maior conquista literária de minha vida.

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