Amor à vida

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 23/02/2017 03:00

Lá um dia o ator famoso, que andara afastado dos refletores do mundo, contou que tivera uma doença grave e estivera se tratando. Sentira-se perto da morte e proclamava então o seu imenso amor pela vida. É o que todos sentimos, mais conscientemente uns, mais inconscientemente a maior parte. Sentimos profundo apego a esta vida, alegra-nos o fato de estarmos vivos, de sentir a vida pulsar dentro de nós.

Mas, não é estranho? Como sentir tanto apego a alguma coisa que, como o carnaval, logo passará? Como vibrarmos tanto com o fato de estarmos vivos quando sabemos que, dentro em pouco, já não estaremos? Como ter amor à vida se ninguém terá a própria vida para sempre? Se ninguém vivera eternamente?

Quem se detiver um pouco nessa estranheza o que passará a sentir é angústia, amargura e infinita frustração. Para que tanto entusiasmo, tanta vibração, tantos afazeres, tantos projetos, tantos empreendimentos, tantos aperreios e tantas vitórias, se, dentro em pouco, tudo isso se extinguirá, com o final da própria vida? O mundo, o cosmos, pode não acabar, ou demorar muito para acabar, mas, para cada um, o mundo acaba com a morte pessoal. O que ficou dos nossos antepassados de 200 anos atrás? Quem sabe alguma coisa deles? Como ter entusiasmo e amor pela vida, se ela é tão breve e logo, muito logo, passa? É luz que acendeu um dia e logo apagou. Ao invés de júbilo pelo fato de estar vivos, o que deveríamos sentir era o desespero de saber que, daqui a pouco, já não mais estaremos e tudo estará acabado – se não para o universo inteiro, e se não para  os outros, que ficarem (apenas por um pouco mais de tempo), mas, sim, para nós mesmos, que teremos desaparecido.

Amor à vida? E tantos proclamam isso com o maior orgulho, muitos sobretudo depois de uma doença grave da qual escaparam: estou vivo! Mas, para que? por que? Ajamos como quisermos – sem nenhum escrúpulo, falsificando, subtraindo dinheiro público, locupletando-se dos cargos e das posições, explorando os outros, mentindo, traindo, ou com decência e algum respeito pelos outros (por quê? em nome de quê?) – ajamos de qualquer forma que seja, mas sempre sem gosto: com nenhum entusiasmo pela vida. Como autômatos, como condenados que estão cumprindo uma pena, como marionetes que desempenham tais ou quais papéis sem saber por que nem para que. Pois como ter amor, tão profundo amor, a alguma coisa que perecerá tão brevemente, que desaparecerá e nada restará dela? O pior é que nem há alternativa, não há outra coisa a que dedicar amor, porque qualquer outra coisa pressupõe a vida. O fatalismo dos gregos ainda é pequeno para tamanha desolação. Amar a vida, que passa, é amor vão, desprovido de sentido, de utilidade, de proveito, de significação.

(A não ser que, de alguma maneira obscura, difícil de entender, a vida continue). 

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