São Sebastião, festejado desde 1926 em Bom Jardim

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 23/02/2017 03:00

Histórias já foram contadas, relembrá-las é uma forma marcante em trazer determinados fatos ocorridos de forma imperecível. Voltar a Bom Jardim, cidade da minha infância e adolescência, já incorporados, em dois dos meus livros: Pátio da Matriz, com matéria de flagrantes municipais, com o generoso parecer do professor e amigo Luiz Delgado, ilustrado pelo grande pintor Lula Cardoso, Ayres, Edição Concordia, fora do comércio, 1965 pela Cepe, Trinta anos depois, em 1997, o meu livro Janela, edição conjunta com Everardo Norões e Sonia Lessa, ilustrada pela autora, Daniel Lima escreve o prefácio:“Tudo é tirado da vida, tudo é vida nessas páginas em que se recaptura a atmosfera de encantamento das coisas, “idas e vividas.”

Contaram os mais velhos que na primeira década do século 20, em Bom Jardim, o dia cobrira-se de nuvens escuras, raios e trovões estridentes. O Rio Tracunhaém descia violento, transbordante, derrubando casas e quarteirões. Muita gente desabrigada, ao desalento. O toque dos sinos da Igreja Matriz de Santana, solidário, dobrava triste, e perdido. Não há nada mais evocativo que o dobrar dos sinos.

Rezas, promessas e pedidos, sucederam-se em agradecimentos ao São Sebastião, todo empenho em devoção pela construção de uma Capela ao Santo protetor dos necessitados, contra os males, peste, fome, epidemias, e calamidades climáticas. O Tracunhaém, dias depois voltara à placidez, entre serras que se antepõem, umas às outras, conduzindo-o à embocadura no município de Goiana, ao norte de Pernambuco.

Tenho com a cidade de Bom Jardim e a pequena Capela de São Sebastião um vínculo forte. A Capela foi construída em 21 de janeiro de 1926. Eu nasci em 22 do mesmo mês e ano. Temos a mesma idade, 91 anos. Deixo registrado que não poderia me deixar mais feliz essa coincidência de elevada moralidade.

Eu, meninota, outras com mais idade, já com namorado. Carmem Barbosa, exímia pianista, com Mário Souto Maior, lança em Bom Jardim, o seu primeiro livro: Meus Poemas Diferentes. No futuro viria a conhecer e ser conduzido por Mauro Mota, Diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, como folclorista e etnógrafo.

No pátio da capela, vigiadas pelos mais velhos, íamos à festa. A música animava o passeio, os carrosséis rodavam, o leilão de prendas com o popular leiloeiro Zé Orobó, em repetidos gritos: Quem dá mais? No coreto a música baixava o som. Ouvidos atentos, para os lances.

Guardei na memória afetiva e contemplativa esses caminhos, para outros transporem, sentindo a vida florescer.

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