Ciência e espiritualidade: caminhos antagônicos?

Aurélio Molina
Ph.D, professor da UPE e membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

Publicação: 22/02/2017 03:00

Chama atenção como a temática “Ciência e Espiritualidade” vem crescendo nos meios acadêmicos em todo mundo, inclusive em programas de mestrado e doutorado. Portanto, é atual o questionamento: Ciência e a Espiritualidade são caminhos antagônicos, complementares ou indivisíveis no entendimento da Realidade? A definição de espiritualidade é difícil e não existe nenhuma universalmente aceita. Mas poderíamos “entende-la” como o “estado de consciência” de que a Realidade é uma só, indivisível, e que a existência individual, neste planeta, está em completa conexão, harmonia e interdependência com tudo que o cerca e com o Universo, visível e invisível, tangível e intangível. Ou como sendo a busca de um significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, à procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio. Diferentemente da religião a espiritualidade é uma filosofia de vida onde predomina a “voz interior” e Deus não pode ser “rotulado”, pois é uma “experiência inefável”, sendo a meditação e a contemplação instrumentos do “religare”. Mas essas abordagens são difíceis de serem aceitas pela comunidade científica, que apesar de também valorizar a autonomia intelectual, tem como pilares epistemológicos o ceticismo, o criticismo e, principalmente, o empirismo, isto é, a necessidade do experimento, ou método mais assemelhado possível, para testar hipóteses ou teorias. Portanto, seria razoável afirmar que elas seriam antagônicas. Entretanto, as “diferenças” começaram a ficar um pouco “indistintas” depois que Einstein formulou a equação E=MC2 (energia é igual à massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado) e afirmou que “em relação à matéria, estivemos todos errados, pois o que nós chamávamos de matéria é energia, cuja vibração está tão diminuída que se torna perceptível aos nossos sentidos”. E ficaram ainda mais “nebulosas” quando Planck, Bohr, Born, Schroedinger, Broglie, Heisenberg, além de Einstein, “criaram” a tão complexa, e aparentemente bizarra, Mecânica Quântica, a Física das dimensões próximas ou abaixo da escala atômica. É tão surpreendente o mundo subatômico que Richard Feynman, Nobel de Física de 1965, afirmou que “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica então é porque você não entendeu nada”. Mas a popularização da aproximação entre Ciência e Espiritualidade deve ser creditada a Fritjot Capra, físico teórico, que em 1975 publicou o livro O Tao da Física, onde traçou um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental, consolidando a ideia de que aquela mística fornece um quadro belo e harmônico para as teorias mais avançadas sobre o “universo quântico” e onde podemos encontrar afirmações que são quase impossíveis de dizer se foram feitas por físicos ou por espiritualistas. Hoje já não causa espanto saber que na entrada do edifício do CERN, o laboratório científico mais avançado do mundo, encontra-se uma bela estátua da deusa Shiva “dançando” ou um Amit Goswami, professor aposentado de Física Teórica da Universidade de Oregon, afirmar que o Universo é autoconsciente através de nós. Não sei se Ciência e Espiritualidade são complementares ou indivisíveis, mas antagônicas elas deixaram de ser. Como já defendiam muitos “gigantes” da Ciência e vários Nobéis.

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