EDITORIAL » Saúde e desperdício

Publicação: 21/02/2017 03:00

A saúde é um dos temas que mais preocupam a população. O receio não se deve ao acaso. Reportagens ricas em imagens frequentam com indesejável frequência jornais e telejornais. Mostram a milhões de brasileiros a tragédia protagonizada por adultos e crianças de norte a sul do país: longas filas de espera, carência de profissionais, falta de medicamentos, macas em corredores, equipamentos fora de uso por descaso na manutenção.

Desculpas não faltam. Sobressai a escassez de recursos. A realidade, porém, revela que o mal é agravado pela má gestão. Ninguém duvida de que a saúde é cara. Muito cara. O avanço em pesquisas tornam-na mais exigente em procedimentos sofisticados aptos a tornar o diagnóstico mais preciso e o tratamento mais eficaz. Os progressos da medicina impõem custos que precisam ser absorvidos pelo orçamento.

Não só. A crise sobrecarregou a saúde pública. Treze milhões de brasileiros engrossam as estatísticas do desemprego e reduzem a renda das famílias. Muitos deles — 500 mil, segundo a Associação Brasileira de Medicina de Grupo — foram forçados a abandonar o seguro privado e migrar para a saúde pública. O fato não constitui (ou não deveria constituir) nenhuma surpresa para os gestores, cuja função, entre outras, é projetar gastos e distribuir os recursos com racionalidade.

Não é, porém, o que se observa. Auditoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal identificou colossal desperdício de dinheiro público destinado ao setor. Nada menos de R$ 18,6 milhões foram jogados no ralo em compras sem planejamento e desnecessárias. Guardados de forma improvisada em galpões da Secretaria de Saúde estão aparelhos de raios-x, câmeras de vigilância, berços, camas ginecológicas, mesas auxiliares e monitores fetais.

Pelo menos 20% do montante investido foi jogado fora. De um lado, fruto de roubo. Sem controle nos estoques da pasta, parte das aquisições milionárias desapareceu. Virou caso de polícia. De outro, resultado da falta de previsão. Um exemplo fala alto. Das 900 câmeras de segurança adquiridas, apenas 95 encontraram destinação. As demais se deterioram sem perspectiva de aproveitamento. Os demais itens não têm sorte mais promissora.

É revoltante. Enquanto brasileiros perdem a saúde e até a vida em decorrência da tragédia em que se transformou a saúde pública, os governos relutam em pôr o dedo na ferida. Mais que a escassez de recursos, o horror se deve em boa parte à gestão improvisada, nada profissional. Presenteia-se — esse é o verbo — com o cargo o apoio recebido na eleição. Há que virar a página que transforma a saúde em moeda de troca. Na outra ponta estão a saúde e a vida das pessoas.

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