Lula, Marisa e doação de órgãos no Brasil

Cláudio Lacerda
Cirurgião e professor da UPE e da Uninassau

Publicação: 18/02/2017 03:00

Em números absolutos, o Brasil consolidou-se como o segundo país do mundo em transplante de órgãos, perdendo apenas para os Estados Unidos. Todavia, se considerarmos o tamanho da nossa população, comparando com nações mais desenvolvidas, ainda precisamos melhorar muito.

Enquanto na Espanha - considerada país modelo de eficiência na atividade, são efetivados aproximadamente 35 doadores de múltiplos órgãos por milhão de habitantes anualmente, o suficiente para que o tempo de espera e a mortalidade em lista sejam mínimos, no Brasil, em 2016, esse índice foi de apenas 13,5.

Isso se deve, em grande parte, ao elevado percentual de recusa familiar, que tem girado em torno de 47% no Brasil, nos últimos anos. Ou seja, quase metade da nossa população nega  a doação, preferindo que os órgãos dos seus entes queridos com morte cerebral sejam enterrados a servirem para recuperar vidas. Como resultado desse desequilíbrio entre necessidade de transplantes e efetivação de doações, há milhares de brasileiros em longas listas de espera, entre eles crianças e jovens, precisando desesperadamente de um órgão, sofrendo as consequências da doença, muitos deles morrendo sem a chance do transplante.

Há três semanas, as mídias nacionais foram tomadas pela notícia da morte cerebral da ex- primeira-dama Marisa Letícia e da decisão do ex-presidente de doar seus órgãos. Não faltaram comentários maldosos, infelizes e desumanos a cerca das verdadeiras intenções de Lula e até, pasmem, das condições dos órgãos de Marisa. Tristeza.

O fato é que o exemplo dado pelo ex-presidente, como era de se esperar, impactou muito favoravelmente nos transplantes de órgãos em todo o país. Com efeito, desde então, temos tido notificações e doações quase que diariamente.

Por mais críticos que sejamos em relação ao político e por mais radicais que sejam os seus opositores sectários e raivosos em relação ao homem público, não é justo deixar de enaltecer o que ele fez. E nesse contexto, claro, em nada importa se todos os órgãos de Marisa foram aproveitados, tampouco as razões da recusa de dois deles pelas equipes transplantadoras. A verdade é que, em momento de extrema dor pela perda da mulher amada, Lula foi capaz de um belíssimo gesto de grandeza, que ajudou a recuperar a saúde de cinco pessoas diretamente e de milhares de outras, indiretamente. Palmas para ele e muita paz para ela.

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