Dom Helder Camara: quatro vezes indicado ao Nobel da Paz

Marcelo Santa Cruz
Advogado, militante dos direitos humanos

Publicação: 18/02/2017 03:00

A Comissão da Verdade Dom Helder Camara, presidida pelo advogado Fernando Vasconcelos Coelho, revela em seu relatório, que dom Helder foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz, sabotado pelos militares. Em 1970, grupos de parlamentares da Holanda, Suécia, França e Irlanda, além de René Cassin, premiado com o Nobel da Paz em 1968, propuseram a candidatura de dom Helder ao premio, respaldado por 5 milhões de assinaturas de trabalhadores, recolhidas pela Confederação Latino-Americana Sindical Cristão. Para os parlamentares irlandeses, “atribuir a dom Helder o Nobel da Paz seria uma manifestação valiosa de solidariedade humana numa situação dominada pelo terrorismo e pela opressão”. Os suecos argumentaram que dom Helder, “além de importante protagonista da não violência, exerce uma posição de liderança dentro da igreja, ao mesmo tempo em que atua de maneira importante na luta pela obtenção de reformas sociais”. E destacaram seu papel no Concilio Vaticano II e em varias conferencias internacionais. O próprio consultor do Comitê Nobel, Jakob Sverdrup, manifestou-se favoravelmente pois o premio “simbolizaria a luta para a melhoria das condições de vida por meios pacíficos.” Não obstante todos esses pareceres, o Nobel da Paz, foi surpreendentemente atribuído ao norte-americano Norman Borlang, especialista em fisiologia das plantas, que realizara pesquisas sobre cereais para o Instituto Rockefeller do México. O fato é que, enquanto os apoiadores da candidatura de dom Helder se moviam aberta e publicamente, nos bastidores á socapa, também corria surdida campanha coordenada pela Embaixada Brasileira em Oslo, atendendo ás determinações do governo do general Emilio Garrastazu Médíce- tão eficiente que conseguiu viabilizar a propositura. A existência dessa trama seria denunciada mais tarde pela rede de televisão norueguesa Norwergian Broadcasting (NRK TV) e comprovada com documentos. A ação se deu em duas frentes: Uma delas trabalhava para que os membros do Comitê Nobel votassem contra a premiação e a outra, por meio de alguns jornais noruegueses, tentava criar uma corrente de opinião que legitimasse a rejeição do nome do arcebispo. Um dos artigos contra dom Helder, por exemplo, assinado pelo jornalista Arild Dillebo, publicado no Morgenposten e também no Brasil pelo Estado de São Paulo, em 18/10/1970 com o titulo: “Prêmio Nobel à violência”. Seria comunista e admirador de Fidel Castro e adotado Ernesto Che Guevara e Camilo Torres como modelos. Essas acusações hoje parecem ridículas, mas naqueles tempos conturbados, foram suficientes para empanar uma parte do brilho da candidatura. A NRK TV também denunciou a atuação do sueco Tore Munch, que teria conseguido persuadir alguns dos 5 membros do comitê Nobel a votar contra. O senhor Munch era amigo pessoal de pelo menos 2 deles: Sjur Lindebraekke, na época o maior banqueiro da Suécia, presidente do PrivatBank de Berjen e do Bernt Ingvaldsen, presidente do Parlamento Norueguês e vice presidente do mesmo Comitê. Insatisfeito, os partidários da candidatura de dom Helder a ratificariam nos 3 anos seguintes e a imprensa lhe dava destaque. Em 1973 era de novo apontado como virtual vencedor. No 17 de outubro, quando se preparava para rezar a primeira missa do dia, as 6hs da manhã, na Igreja das Fronteiras, o Dom recebeu por telefone a notícia de o que o Nobel da Paz daquele ano fora a atribuído ao norte-americano Henry Kissinger e ao vietnamita Le Duc Tho, a dupla que negociara o fim da guerra do Vietnã. Dom Helder, não foi distinguido em vida com premio Nobel da paz, será santificado pela Igreja Católica e aclamado pelo povo de Deus, o santo dos direitos humanos.

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