Literatura e gastronomia

Edilson Pereira Nobre Júnior
Desembargador federal

Publicação: 17/02/2017 03:00

Inseriu-se a meditar num caleidoscópio de opiniões. Para alguns, como um de seus inesquecíveis professores, não há que se falar em romance sem uma bela e, necessariamente, irresistível, mulher. Outros diziam – não sem uma forte pitada de razão, como esse tal de Henri Beyle – que o romance é o espelho que passeia por uma longa via.

Afora o gosto pela polêmica, algo que fascinou Ricardo foi poder constatar que, em torno da narrativa principal, o escritor, no contraste entre memória e imaginação, muitas vezes insere observações marginais sobre uma diversidade de aspectos. Um deles a gastronomia.

Não desconhecia textos, como as maravilhosas Memórias Gastronômicas, seguidas de uma Pequena História da Culinária, de Alexandre Dumas, onde a referência ao tema é o objeto central da descrição. O que lhe fascinava mesmo eram as situações onde, versando o texto sobre uma história principal, o autor, adicionando à ficção toques da realidade, incorporava de passagem à sua narrativa referências à culinária que envolve a sua existência.

Referia-se ser esse traço comum em Vargas Llosa, o qual, habitante de quatro cidades (Lima, Paris, Madri e Londres), em seus Os Cadernos de Dom Rigoberto escolhe como palco de uma das suas cenas o Brasserie Lipp, no agradável bairro de Saint-Germain, ou, como fez em O Herói Discreto, reportando-se ao clima acolhedor e aos sabores do Rosa Náutica (Lima) e os da Casa Lúcio (Madri).

Porém, o mais surpreendente para Ricardo foi quando leu O cemitério de Praga, de Humberto Eco. Aos poucos, com o avanço da leitura, percebeu que o protagonista do romance, Simone Simonini, nas inúmeras e geniais tramas que urdia – que aqui não se conta para não ser um spoiler – tinha como teatro das suas maquinações restaurantes que já eram frequentados nas últimas décadas do século XIX e que, com exceção do Cafe Anglais, fechado em 1913, ainda estão em pleno funcionamento, brindando o leitor, nalgumas passagens, com irresistíveis sugestões de pratos. Foram eles o Le Grand Véfour, Au Rocher de Cancale, Voisin, Cafe Riche, Père Lathuile, Foyot, Brébant-Vachete e Paillard.

Assim, Ricardo – pão-duro por opção e que juntava seus trocados desde a infância – decidiu se aposentar, antes que tal se tornasse impossível, e voltar à cidade luz, agora com a possibilidade de realizar, dentro das possibilidades dos seus recursos, o tour gastronômico dos seus sonhos e que literatura o fez descobrir. E, é claro, acompanhado daquela com a qual, na terceira idade, fez-se revelar o seu amor juvenil.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.