É carnaval!

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 16/02/2017 03:00

Sempre tive uma queda pelo homem-aranha. Dia desses fiz um selfie com ele, numa dessas prévias do carnaval. Gosto muito da ideia do super-herói “self -made”, que começou sua carreira de personagem fictício como um adolescente órfão, criado pelos tios, alter-ego de Peter Parker, que por trás da máscara vermelha e azul com que combate os inimigos, esconde as suas inseguranças de gente como a gente, e suas obsessões com a rejeição e a solidão.

Stan Lee deu ao seu personagem super-poderes que adquiriu após ter sido mordido por uma aranha radioativa. E a partir de sua aptidão para a ciência, agregou às super-força, agilidade e habilidade para aderir à maior parte das superfícies, os poderes que inventou por si próprio, como o lança-teia. Mas de todos, o que mais me agrada é o sentido-aranha, que o possibilita a reagir precognitivamente ao perigo.

Pudemos acompanhar toda sua saga nas revistas em quadrinhos, e mais tarde nos filmes que mostravam a história de vida do super-herói que, de um estudante de ensino médio, passou pela universidade, tornou-se um professor e mais tarde um fotógrafo independente. Um super herói sem mentor, e que em sua trajetória de vida aprendeu sozinho que “com um grande poder vem sempre uma grande responsabilidade”.

Faz gosto de ver a tradicional descida do homem-aranha pela caixa d´água da Compesa, em Olinda, na concentração do bloco carnavalesco Enquanto isso na sala de justiça. O lugar é mágico e a cena, memorável.

Este ano me fantasiei de Gwen, para a prévia do bloco da Mulher na Vara. Infelizmente a vara ficou muito pouco tempo no salão, senão acho que teria sido uma experiência marcante a mulher do homem-aranha frevar na vara segurada por homens gentis, que mesmo sem lança-teias não deixam as moças caírem no chão do salão e das ladeiras de Olinda.

Por falar nas ladeiras de Olinda, elas estão completamente tomadas de gente. Vi isso  domingo, no ensaio do bloco Acho é pouco. Confesso que estava exausta, mas não podia perder de ver os pais e mães foliões ensinarem desde cedo seus filhos a gostarem de nossa cultura popular, a terem consciência política e a resistirem. Foi lindo ver o dragão vermelho e amarelo vestindo a camisa “Fora Temer”, e liderando nossos protestos pela cidade alta.

Sinceramente, não sei como vou estar ao chegar o carnaval, mas acho que particularmente este ano faz bem a nós, brasileiros, termos um carnaval tão longo. Isso porque a nossa quaresma promete ser muito penosa.

Nós, simples brasileiros, que pecamos tanto durante o carnaval, celebrando a vida, encontrando os amigos, dançando, bebendo, fantasiando, de forma tão verdadeira e irreverente; Nós, pernambucanos, que somos todos, um pouco, amantes de Glória e que reverenciamos a Pitombeira, que dá fruta besta que se compra com qualquer tostão, já já, muito em breve, teremos que encarar a quarta-feira de cinzas, início da quaresma, com suas admoestações.

E enquanto fazemos os nossos exames de consciência, por uma cerveja a mais ou um amor a menos, sabemos que a via-crucis que nos está sendo imposta tem muito pouco de nossa responsabilidade, até porque não temos grandes poderes.

O problema é que a política do Brasil não amadurece, e o nosso povo não tem a chance de crescer e de se educar, para exigir maiores responsabilidades daqueles que têm maiores poderes. Acho que o ato mais heróico do homem-aranha foi ter aprendido que “com um grande poder vem sempre uma grande responsabilidade”. É exatamente essa a noção que falta aos homens de dinheiro e às autoridades brasileiras. Isso e decência.

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