A crise, o mote e a vereda

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 16/02/2017 03:00

A imprensa não cansa, nem descansa. A crise é política, econômica, social, ambiental e de segurança, mas o foco, o mote, ainda é o combate à corrupção, com enfoques em escândalos, denúncias, delações, prisões e condenações. Assim como a mídia, o Ministério Público, Sérgio Moro e equipe mantém o discurso truculento de limpeza do terreno, ou seja, punir os corruptos que geraram o clima de recessão que exige agora “medidas amargas”.

Nessa linha, o governo e o Congresso insistem na farsa da contenção de gastos que provoca mais desemprego, revolta, com a polícia militar em greve em alguns estados por força dos baixos salários, condições precárias de trabalho, que os governos estaduais ignoram sob o pretexto da recessão e falta de recursos. É uma postura insana, perigosa,  que inquieta o país assustado com a convulsão, o aumento de conflitos e mortes, secas e inundações. É ridícula a janela que resta ao foco da mídia e do judiciário – reduzir os gastos dos estados, os programas sociais, reformar a previdência, a legislação trabalhista e deter o consumo – medidas que exigem sacrifícios de todos e o respeito às leis, à Constituição de 88, violada no processo do golpe que cassou o mandato da presidenta Dilma Rousseff. Daí a crise avançou mais e o Governo Temer, o Judiciário, perderam o caminho mágico dos ilusionistas, restando pagar a conta dos recursos oriundos de “investidores” nacionais e do exterior, usados também na campanha eleitoral de 2014.

É incrível o cinismo dos farsantes, as exigências da União que impõe o pagamento de “R$ 277 bilhões a título de prestações da dívida, pagos indevidamente; segundo José Carlos de Assis”. Economista, professor de Economia, adianta que “a dívida pública em 2016 cresceu aproximadamente R$ 350 bilhões, nove vezes o que seria resgatado anualmente aos Estados ao longo de cinco anos. A diferença é que o dinheiro serviria para gastos públicos essenciais, enquanto os títulos que o governo emitiu no ano passado giraram na fornalha da especulação financeira, enriquecendo banqueiros e financistas.”. Ele condena a “covardia dos governadores aceitando pagar R$ 476 bilhões nos próximos anos e ignorando o estrangulamento de seus estados - que faz parte de um plano internacional para liquidar o setor público e criar espaço para sua privatização”.

É inegável que a imposição faz parte de um plano urdido com fins de atender as forças do mercado e cabe lembrar o poeta Castro Alves: ”Auriverde pendão da minha terra/Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra/ E as promessas divinas da Esperança.../ Tu, que da liberdade após a guerra/ Foste hasteado dos heróis na lança/ Antes te houvessem rôto na batalha/ Do que servires a um povo de mortalha”. Diante da vereda, temos que defender “as promessas divinas da Esperança”, e lembrar a resistência em defesa dos valores nacionais, da nossa nação, para evitar esse lamento do poeta - “Silëncio...! Musa! Chora! E Chora Tanto!/ Que o pavilhão se lave no teu pranto!”.  

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