A ficção perigosa da economia do dinheiro

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 16/02/2017 03:00

O respeitado cientista britânico Frederick Soddy (1877-1956), vencedor do Nobel de Química de 1921, apesar de formado nas ciências exatas, aventurou-se numa visão crítica do modelo de sistema econômico dos economistas. Fez isso em quatro livros, um dos quais, de 1926, com o sugestivo título de Wealth, Virtual Wealth and Debt (riqueza, riqueza virtual e dívida). Nele, propõe uma ciência econômica com raízes na física, em particular nas duras Leis da Termodinâmica. É usual a imagem do sistema econômico com um mecanismo. Contudo, raros economistas seguem essa metáfora até suas conclusões lógicas finais, como a de que, igual a qualquer máquina, a economia deve retirar energia de seu exterior, o meio ambiente. A primeira e a segunda leis da Termodinâmica proíbem aquilo que se conhece como moto perpétuo, situações em que máquinas criariam energia do nada ou a reciclariam infinitas vezes. Na verdade, como sistema isolado, sem entorno, o modelo de economia dos economistas, na percepção física, pareceria capaz de gerar riqueza ilimitadamente. Acontece que a riqueza real, essa que se apalpa (instalações, objetos, bens de consumo, etc.) possui natureza concreta. Já ativos financeiros (dinheiro, ações, derivativos, títulos) constituem abstrações. E são tais abstrações cujo crescimento não respeita limites.

A moeda (dólar, real, euro) e tudo aquilo que contém significado apenas por sua expressão em dinheiro (títulos de todo tipo) são símbolos que representam um direito do portador a certa forma de riqueza. A dívida, por sua parte, significa um direito do credor que depende da capacidade da economia de produzir riqueza no futuro, capacidade essa que dá ao portador do título a segurança de que seu direito será realizado. “A paixão dominante atual”, falava Soddy, “é converter riqueza em dívida”, no sentido de que o credor se livra de uma coisa que pode se destruir em troca de outra que é a garantia de que determinada quantia lhe será paga adiante. A moeda entra então para facilitar as transações. Os problemas vão surgir quando a riqueza e a dívida não são mantidas dentro de relação adequada. Que é exatamente o que acontece no mundo atual, haja vista que os ativos financeiros globais representam quase 20 vezes mais do que a economia referente a coisas concretas do planeta (há 90 anos, a economia real era maior). Atualmente, há um giro financeiro diário no mundo (papéis trocados por papéis) de 5,1 trilhões de dólares. Se todos os credores de dívida quisessem convertê-las em coisas físicas, estouraria um colapso monetário global: a moeda, em cada país, viraria pó. Assustador, um tsunami. Porém, uma realidade possível.

A questão é que a economia de produção e consumo de coisas não pode crescer com a velocidade que se determinar. Segundo Soddy – e muita gente que já assimilou seus ensinamentos rigorosos, como os economistas ecológicos e a encíclica papal Laudato Si’ –, “não faz sentido contrapor permanentemente uma convenção humana absurda, como é o caso do espontâneo crescimento da dívida [juros compostos], à lei natural do espontâneo decrescimento da riqueza [entropia; Segunda Lei da Termodinâmica]”. De fato, o montante de riqueza que uma economia pode gerar é limitado tanto pelo montante de energia de baixa entropia que ela pode retirar de seu meio ambiente quanto pelo montante de efluentes de alta entropia da economia que o ambiente é capaz de absorver. A dívida em dinheiro, sendo algo imaginário, uma convenção no papel, não está sujeita a tais limites naturais. Pode-se expandir de forma ilimitada, com taxas mortíferas que enriquecem de modo concentrador a minoria parasitária ínfima dos que controlam o sistema. Passa-lhe ilusão de riqueza e põe em risco o bem-estar e a vida no planeta. Uma situação absolutamente insustentável.

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