O vagão rosa

Anco Márcio Tenório Vieira
Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE

Publicação: 14/02/2017 03:00

Destinando às usuárias do metrô do Recife um dos seus vagões, a CBTU pareceu tomar uma solução sensata para coibir a violência e o assédio sexual contra as mulheres. Na verdade, a “solução” apenas alimenta velhos estereótipos, preconceitos e mostra a falência da nossa segurança pública. Vejamos.

Ao segregar as usuárias em um “vagão rosa”, a CBTU não só está reafirmando o caráter “indefeso” e “frágil” atribuído à mulher, como reiterando, de modo sutil, o discurso machista e misógino de que ela é incapaz de se defender dos seus “algozes”. Logo, como elas poderiam comandar empresas, assumir cargos de chefia dentro do Estado ou mesmo ser respeitadas em espaços que são tradicionalmente tidos como masculinos? Por outro lado, a “solução” dada pela CBTU encerra um contraditório: se as mulheres representam 56% dos usuários do metrô e como um vagão não é suficiente para transportar todas elas, particularmente nos seus horários de pico (das 6:00-8:30 e das 17:30-19:30), como ficam as passageiras que precisam viajar nos vagões destinados aos homens, se não há ninguém para protegê-las? Ora, se elas também podem viajar nos vagões destinados aos homens, então isso significa dizer que essas mulheres, contrariando o estereótipo que lhes é imputado de sexo “indefeso” e “frágil”, são adultas e capazes de se protegerem?

Outro ponto a frisar, é que como ainda não se aboliu o livre-arbítrio, muito menos vivemos em um Estado totalitário que diz como devemos viver ou nos locomover, apesar de certos “moralistas” que adorariam regrar como deveríamos proceder até na alcova, creio que o direito de escolher o vagão que melhor lhe aprouver é uma decisão que apenas e somente cabe à mulher decidir. Logo, ao optar por não viajar nos vagões que lhe são destinados, essa mulher, caso fosse assediada sexualmente, seria responsabilizada por ser a agente provocadora? Ou seja, mais uma vez, ela, a vítima, é que seria a culpada?

Por fim, duas derradeiras perguntas: essa “solução cidadã” também se estenderá aos ônibus e aos demais espaços públicos, a exemplo de ruas, cinemas, teatros, escolas, hospitais, restaurantes e shoppings? As questões da segurança e da urbanidade se resolvem construindo espaços-bolhas para as vítimas do machismo, da misoginia e da homofobia, ou passa por enfrentarmos com as armas da educação (sem hipocrisia nem falso moralismo religioso), a violência de gênero nas escolas, fábricas, empresas e instituições públicas?

Creio que nenhuma sociedade é forte e saudável se ela prefere promover antes a segregação do que o enriquecedor convívio entre os diferentes, principalmente quando os segregados respondem, no caso, por mais da metade da sua população. Ao recorrer à segregação de gêneros, essa sociedade não apenas revela o quão enferma é, como atesta que fracassou em seu projeto civilizatório e caminha a passos largos para a completa barbárie.

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