Contista carioca surpreende na hábil simplicidade com sofisticação

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 13/02/2017 03:00

Simples como beber água – é assim a técnica mais trabalhada pelo escritor carioca Marcelo Moutinho no livro de Contos “Ferrugem”, que está sendo lançado pela Editora Record. Basta ler o antológico “Xodó”, que abre o livro, para que se perceba a maravilhosa narrativa, em que o leitor é seduzido a cada palavra, a cada ação, a cada sequência, perfeitamente ajustada no artesanato , ou apenas na técnica, que defendo no meu livro “A Preparação do Escritor” e que ensino em todas as aulas no a Centro Cultural : simplicidade com sofisticação. É exemplar.

Na simplicidade com sofisticação, o escritor reúne várias técnicas sem, no entanto, causar qualquer dificuldade ao leitor que se comporta, repito, como um sedento diante de um copo d´Água: 1 - enredo sem história,2 narrador inominado, 3 atenção especial ao detalhe, 4 - ausência de adjetivos desordenados, 5 - ação, cena, sequência.

Ou seja, o autor usa todas as técnicas – ou quase todas as técnicas -, mas com uma simplicidade envolvente, que é a marca, claro, de todo sedutor. E o que conta “Xodó”: o conto dirá, leia e leia, na ansiedade da leitura e na sedução do texto você vai descobrindo do que se trata, embora fazendo perguntas e se inquietando. A frase é leve, direta, incisiva. Uma cena ilumina a outra mas não explica. Nada se explica. Em ficção nada se explica. É definitivo. A sedução continua até a última palavra. Assim pode-se ver a primeira cena: “Ele se mantinha de bruços, o short não de todo arriado, mas eu podia enxergar o corte que rasga a parte inferior das costas, formando duas bandas onduladas. A nesga vermelha da cueca – aquela mesma que a mamãe já pedira muitas vezes que ele jogasse fora – contrastava com o tecido preto do calção e a pele alvíssima. O que eu não conseguia definir, na perspectiva da fresta da porta, era o que estava sob o corpo dele, que se mexia, os movimentos concentrados entre as pernas e o tronco.” Intrigante e belo. Uma cena que substitui adjetivos e advérbios, criando empatia e inquietação no leitor, a perguntar: afinal, o que está acontecendo? Mesmo que pareça tão claro.

O leitor entende logo mas pergunta: como e por quê? Continua lendo e descobrindo, mais adiante se convence: “Não é nada disso, e o que é? Gosta do que lê e continua, e continua, e continua. Quer mais, percebe que o conto está chegando ao fim, mas pretende o veredito derradeiro. Tudo muito claro, mas falta alguma coisa. A cena seguinte dirá. Mas o prazer da leitura está plenamente satisfeito. De propósito não revelei a história. A simplicidade com sofisticação revelará. Compre e leia o livro.

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