Dom Helder Camara - O Dom do Amor e da Justiça Social

Marcelo Santa Cruz
Advogado / Militante dos Direitos Humanos

Publicação: 11/02/2017 03:00

A memória histórica registra que no dia 12 de abril de 1964, nomeado pelo papa Paulo VI, dom Helder Camara chegava para assumir seu lugar como 30º bispo e 6º arcebispo de Olinda e Recife. Eu tinha, então, 20 anos. Espremido no meio à multidão que foi recepcioná-lo na Matriz de Santo Antônio, saboreei cada palavra do corajoso discurso proferido por aquele cearense baixinho, magrinho, orelhudo, sorridente, grande orador, que emoldurava seus pensamentos com largos gestos dos braços e das mãos. Em sua mensagem, disse ele: que era um nordestino falando a nordestinos com os olhos postos no Brasil, na América e no Mundo. Um cristão dirigindo-se a cristãos, mas de coração aberto, ecumenicamente, para os homens de todos os credos e de todas as ideologias. Um bispo da Igreja Católica que, à imitação de Cristo não vem para ser servido, mais para servir. Finda a cerimônia, voltei para casa, em Olinda, levando comigo duas certezas: a primeira, era que teríamos no novo arcebispo, um aliado na luta pela volta do Estado Democrático de Direito, derrubado havia onze dias. A segunda, era que essa luta seria de curta duração. Os jovens são, por natureza, otimistas e idealistas. Errei as duas previsões. A ditadura se estenderia por mais de duas décadas, ao longo das quais causaria tremendos danos políticos, sociais, éticos e culturais ao país, cujas profundas cicatrizes até hoje carregamos.

Dom Helder se transformaria não apenas em um aliado contra o regime civil/ militar, que aqui implantou o arbítrio e a violência institucional, mas, talvez, seu principal opositor. Mais do que isso, tornou-se o profeta da utopia, o pastor da liberdade, uma das maiores personalidades do século passado, várias vezes indicado ao premio Nobel da Paz, o Dom do Amor e da Justiça Social, o confidente, o parceiro atencioso, o autor de corajosas denúncias e ações em defesa dos perseguidos. Solidário bem de perto, por exemplo, entre muitos outros casos, ao drama vivido por minha mãe, Elzita Santa Cruz, que viu serem presos, exilados, torturados, perseguidos e sequestrados seus filhos e filhas, e um deles, Fernando Santa Cruz, desaparecido para sempre, morto sem sepultura. Dois gestos de dom Helder, quando assumiu a Arquidiocese de Olinda e Recife, são bons indicadores de sua personalidade e da linha que imprimiria a sua ação pastoral. Mudou-se do Palácio dos Manguinhos para um humilde alojamento dos fundos da Igreja das Fronteiras e dispensou o carro com motorista. Sua luta permanente pelos Direitos Humanos, contra as torturas, os assassinatos e os desaparecimentos dos cidadãos e cidadãs brasileiros(as), começava a repercutir cada vez mais no exterior. Mais lá do que aqui, posto que sob censura, os meios de comunicação estavam proibidos de falar no seu nome, a não ser para criticá-lo. O papa Francisco, que em suas homilias defende uma Igreja despojada de riquezas e luxos, faz lembrar os ensinamentos e a trajetória de vida de dom Helder Camara. Ele que será, com absoluta certeza, o Santo dos Direitos Humanos.

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