O desassossego da luz

Plínio Palhano
Artista plástico

Publicação: 10/02/2017 03:00

Conta a lenda que um imenso cardume vivia num lago, onde a água era turva, com algas escuras, de uma aparente abundância, porque o alimento era adquirido sem esforço. Cada indivíduo daquela espécie não tinha nenhuma inquietação, estava saciado e lento em seus movimentos. Aos mais jovens era ensinado que não deveriam sair dali, pois uma corrente próxima desembocava num oceano misterioso e cheio de perigo. Mas um peixe curioso tentou quebrar a tradição. Aventurou-se a pular, com grande coragem, para alcançar as águas desconhecidas. Quando mergulhou na nova corrente de águas luminosas, sua visão foi renovada. Percebeu alimentos saborosos, outras plantas aquáticas e seres de uma beleza nunca vista. Esse audacioso peixe foi considerado um desertor, um subversivo da ordem de não atravessar os limites determinados. Talvez represente o artista, aquele que ultrapassa as aparências e ousa mergulhar para ver os múltiplos aspectos da vida.
Foi assim, com esse espírito, que escrevi sobre a arte, os artistas do meu convívio e os já consagrados pela História. Ao observar a teia que envolve essas personalidades, notei que possuem concepções diferenciadas e que concretizam significados permanentes. Constatei, com isso, que é necessário o artista dizer algo sobre os seus pares, a história da arte e os vários enigmas que a envolvem. Uma colaboração à sociedade, obedecendo a um impulso interior. É o que tento fazer com artigos que, há vários anos, venho publicando. Esses artigos são reflexões sobre temas do âmbito das artes visuais e fazem parte de uma visão crítica do autor.
Desde o início, como artista, procurei registrar fotograficamente minhas obras sem suspeitar de que essa documentação de imagens seria útil após anos de trabalho. Com essas fotos, consegui realizar, no meu site, uma ampla apresentação da obra. Neste livro O desassossego da luz, está uma parte menor desse acervo fotográfico: apenas amostras de cada série nas técnicas que desenvolvi, sobretudo na pintura. Cada série obedece a um período de anos, como, por exemplo, a Série Fernando de Noronha, que foi realizada entre 2008 e 2011.  Mas outros quadros intitulados com o mesmo nome do arquipélago foram de 2015 e são obras individuais. Essas reproduções consolidam uma abordagem plástica e meu olhar sobre o mundo e as coisas.

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