O povo ao poder

Luciana Grassano Melo
Professora da Direito da UFPE

Publicação: 09/02/2017 03:00

Em menos de quinze dias de mandato à frente da presidência, Trump conseguiu levar, em todo o mundo, milhares de milhões às ruas em protesto contra os muros e os “ismos”, que pretende construir e acentuar.

Isolado em sua fúria, coitado, nunca leu Castro Alves: “A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade/ Cria águias em seu calor!”

Isolado em sua fúria, coitado, não conheceu a nossa Revolução Praieira, tuba da Revolução Francesa, senão teria aprendido com Antonio Pedro Figueiredo, que “O sofrimento social, proveniente da incoerência das relações que ora existem entre os homens, como produtores, distribuidores e consumidores, continua a manifestar-se claramente nas partes mais ricas e civilizadas da Europa, por uma divisão cada vez mais profunda entre as classes que gozam ociosas e as que trabalham quebrantadas pela miséria”.

Se conhecesse os ideais libertários de nossos líderes praieiros, bradados em meados do século XIX, certamente também se questionaria: “que papel podem representar a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade nas nossas sociedades modernas? Que é a igualdade onde pequeno número de privilegiados gasta na ociosidade o produto do trabalho de milhares de seus irmãos? Que é Fraternidade num grêmio social que deificou o egoísmo sob todas as formas.... Que é que pode significar o vocábulo Liberdade numa sociedade em que as massas dependem de um pequeno número de homens, que de fato exercem sobre elas um direito de vida e de morte, por mercê do capital?”.

Se não fosse tão ignorante, teria discernimento para aprender com o que sucedeu no século seguinte, palco de duas guerras mundiais que, ao final, dividiu o mundo em dois e criou os muros que somente décadas atrás a civilização conseguiu derruir.

Se não fosse tão prepotente, teria aprendido com Marx que a história se repete, sim, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, e que, portanto, as pessoas vão às praças em todo o mundo contra o seu governo, para glorificar novas lutas e não para parodiar lutas do passado.

No seu conjunto, vê-se que a grande aspiração da Revolta Praieira é a organização da liberdade, que coincide com o sentido daquele século XIX. Vários itens do manifesto liderado por Borges da Fonseca na Revolta Praieira harmonizam-se com as reivindicações que continuam, sob outra roupagem ou com a mesma, repercutindo pelos nossos tempos atuais, no Brasil e fora dele.

Mas a organização da liberdade é uma no Brasil, entretanto, é outra, muito mais respeitável, nos Estados Unidos da América. Não será tão fácil exercer lá um poder autoritário contra ela. Espero que no Brasil e no mundo surjam novos líderes cuja voz emerja da voz do povo, nutrida pela voz dos poetas, como Castro Alves que reivindicava para o povo o direito à praça, o que significa o direito ao protesto, ao grito e à Revolução.

Grandes líderes, como Antonio Pedro Figueiredo, e tantos outros que transmitiram o exemplo de luta e de esperança, como nesses versos: "Que nos resta fazer?/ Esperar melhores tempos. /Quais são esses tempos?/ Aqueles em que as rosas florescem./ Que rosas, brancas? /Não, vermelhas".

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