Azar do México

João Bosco Tenório Galvão
Advogado

Publicação: 08/02/2017 03:00

Uma vez na casa do embaixador do Brasil na cidade do México, diplomata Fernando Alves, num agradável jantar, um dos embaixadores presentes, o da extinta URSS,  enquanto elogiava o país dos astecas dizia que o mesmo tinha dois azares: Deus ser brasileiro e terem por vizinho os Estados Unidos. No tocante a vizinhança é crível a observação, em relação a proteção divina tenho cá minhas dúvidas. Era 1982 e o México sofria uma grave crise econômica decorrente dos preços de comodities e o Banco Central Americano inseria-se, azarando no cenário ditando regras ao vizinho. O azar mexicano vinha de longa data. Os Estados Unidos já na primeira metade do século XIX achavam que tinham um DESTINO MANIFESTO,  traçado  por Deus, de  ocuparem toda a América colonizando-a sob suas regras: expulsando os índios e  ampliando a área de exploração da escravidão, então já proibida no México. Esse destino manifesto resultou na guerra de 1846-1848, com a consequência dos Estados Unidos ampliarem suas fronteiras em 25% do seu território e o azarado México perdendo 50% de sua área. Os Estados Unidos ganharam a Califórnia, o Novo México e consolidaram seu domínio sobre o atual território do Estado do Texas. A história dos dois países é uma história de diferenças, com enormes choques culturais, raciais e políticos, advindos do próprio processo de suas respectivas colonizações. Por mais que o mundo se modernize essas diferenças se prolongam, pois o México é o maior exportador de drogas aos vizinhos e os americanos os maiores consumidores do mundo. O México tem em seu território um milhão de americanos e os Estados Unidos mais de 3 milhões de mexicanos, em  sua maioria imigrantes ilegais. As divergências atuais, decorrentes de imigração, armas e drogas, são os principais tópicos da corrente discórdia, onde, pelo menos nas aparências, são mantidas as respectivas soberanias nacionais. Agora México e os EUA estão em novas controvérsias que podem violar a soberania mexicana e colocar os demais países do novo mundo com as barbas de molho. O novo presidente americano, defensor da tortura em pleno século XXI, é impulsivo e poderoso, não se sabe até quanto e quando. Sem viciados não existiria o negócio dos traficantes! Então vamos ao muro de 20 bilhões de dólares que o Trump quer construir sob encargo mexicano, visando o combate ao tráfico de drogas e à imigração ilegal. Podem gastar os 20 e mais 20, tudo permanecerá como dantes no quartel de Abrantes. O imigrante vai atrás da riqueza vizinha, que poderia ser produzida em seu torrão natal; o traficante vai em busca de seus ricos e pobres viciados usuários onde quer que eles estejam, com ou sem muros, inclusive na Tower Trump. A quebra da soberania mexicana é temerária e preocupa a todos. O uso do poderio americano contra o México, cujo PIB é 16,5 menor que o americano, preocupa a todos nós, pois hoje é o México que pode ter sua soberania violada, amanhã poderá ser Cuba, por sua salsa e suas praias tropicais, ou a Argentina, por seus tangos e milongas ou mesmo o Brasil, por suas matas e riquezas. Os Estados Unidos se isolam, desprezando os fóruns de debates e decisões internacionais, como a OEA, a ONU, a OMC, a OTAN. O que não pode é a sociedade americana, tão agradável que é, ficar afastada do mundo por um Presidente impetuoso, discriminador, inábil e preocupante, pelo poder que tem. De minha parte aviso aos queridos amigos americanos: novas visitas só quando o topete passar...

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