Colapsos ambiental e financeiro ameaçam o mundo

Clóvis Cavalcanti *
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Publicação: 06/02/2017 03:00

Não se trata de exagero ou pessimismo afirmar que existe apreensão nos círculos das ciências exatas e da natureza, um pouco menos no campo das sociais, quanto a colapsos que nossa sociedade planetária pode experimentar em período não distante. O assunto figura nas preocupações do Papa Francisco, cuja encíclica Laudato Si’, de maio de 2015, o aborda. Lê-se nela, por exemplo, que “Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades”. Isso, porque “parece notar-se sintomas dum ponto de ruptura, por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras ... Há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ação humana”. Vale sublinhar que o documento papal não saiu da cabeça de Sua Santidade sem antes buscar sólida base científica. De fato, em maio de 2014, as Academias Pontifícias de Ciências (APC) e de Ciências Sociais (APCS) promoveram um seminário conjunto em que os temas da encíclica foram examinados e oferecidos ao papa para sua consideração. Do evento participaram renomados cientistas, alguns deles laureados com o Prêmio Nobel. Não por acaso, a encíclica, na ótica da ciência, é considerada um documento irretocável.

Certamente, uma questão grave é a da mudança climática, objeto do campo de inquietações de Francisco. Considerando o clima “um bem comum”, a encíclica sublinha que mudanças nele “são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade”. No Nordeste do Brasil, é visível que algo preocupante está acontecendo. O desaparecimento da água potável, a escassez de chuvas, a sensação de desertificação que se experimenta com a vegetação esturricada à nossa volta não são episódios erráticos. Quem abre a torneira em casa, como um habitante do Recife, por exemplo, e vê a água saindo, não imagina o drama que a população de áreas sertanejas vivencia. Meu cunhado Valderedo, criador de gado leiteiro em Garanhuns, não tem mais como impedir que suas vacas morram.

Teme-se que, do ponto de vista do aquecimento global e do degelo do Ártico, da Groelândia e, especialmente da Antártica, o ponto de não retorno do problema já tenha sido atingido. Receios de catástrofes iminentes se manifestam. Artigo de Douglas Fox, na National Geographic, de 12/4/2016, avisa que os cientistas vêem com horror o colapso do gelo na Antártida. Nicola Jones, na revista Yale Environment, de 26/1/2017, por sua vez registra o fato assustador de que o ano passado marcou a primeira vez em muitos milhões de anos que as concentrações de CO2 na atmosfera passaram de 400 partes por milhão. A isso tudo se acrescenta uma crise do sistema financeiro mundial por conta da dívida crescente e impagável de governos, empresas e pessoas que forçam a economia mundial a crescer a todo custo. Ou seja, para que se mantenha a crença de que a dívida será paga, não existe outra saída senão aumentar o PIB indefinidamente. Mas é isso exatamente que causa os problemas que tanto preocupam. Vale lembrar aqui o conselho de Albert Eistein (1879-1955) de que “Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento que foi  usado quando os criamos”. Está na hora de aceitar o ensinamento da encíclica Laudato Si’ acerca da necessidade de “mudanças profundas” no nosso estilo de sociedade.

* Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE); cloviscavalcanti.tao@gmail.com

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