EDITORIAL » Sobre a ética médica

Publicação: 06/02/2017 03:00

O episódio do vazamento de dados sigilosos do diagnóstico da ex-primeira-dama Marisa Letícia trouxe à tona as questões da ética médica e de como profissionais e entidades de classe têm se posicionado publicamente. A profissão tem um código de ética, documento de 14 capítulos aprovado em 2009 pelo Conselho Federal de Medicina. Já no art. 1º do capítulo inicial, o documento deixa clara a definição da profissão e o caráter universal que deve ter o atendimento. “A medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza”.

Garantir o exercício livre de discriminação pressupõe atendimento idêntico a indivíduos de diferentes raças, classes sociais, orientações sexuais, religiões e posicionamento político. Isso porque “o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”, continua o documento.

A médica que vazou os dados da ex-primeira-dama o teria feito a fim de informar os colegas sobre o estado de saúde de Marisa Letícia. Reumatologista e, provavelmente, à margem do caso em questão – ou seja, forjando o próprio acesso aos dados –, sua intenção inicial seria o reles exercício da fofoca.

Rapidamente, a informação se espalhou, acompanhada de comentários de médicos que comemoravam a delicadeza do estado de saúde da ex-primeira-dama. Obviamente motivados pelo posicionamento político da paciente e sua proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um neurocirurgião deu tom de inequívoca vilania à conversa. “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, referindo-se ao coágulo.

Ainda no capítulo 1 do Código de Ética Médica, o artigo 6º diz que “o médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício". E o 11º garante: “o médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções”.

O hospital demitiu a médica e o Conselho Regional de Medicina de São Paulo investiga o caso. A resposta das instituições precisa mesmo ser firme e exemplar. Mais que isso, deve ser permanente, e a discussão precisa envolver também as universidades. Isso porque a reputação que está em jogo é a da própria medicina, e é preciso garantir que profissionais como esses sejam as exceções.

A pergunta que fica incomoda além do episódio: onde temos errado? Famílias, instituições de ensino, entidades de classe e a sociedade em geral estão falhando em preparar médicos que se interessem, sobretudo, por pessoas. A vida precisa se sobrepor ao ódio.

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