Guita Charifker

Jacques Ribemboim
Escritor

Publicação: 04/02/2017 03:00

Numa madrugada de sessenta e quatro, Abelardo da Hora bateu-lhe à porta pedindo socorro. Estava a pé, ofegante, fugindo da polícia repressiva. Guita Charifker não titubeou um só instante em levar o amigo de carro para bem longe, onde pudesse se esconder por uns tempos. Essa história me foi contada pelo próprio Abelardo, ressaltando sempre a coragem de Guita em ter se arriscado para salvá-lo.

Uma das poucas pintoras pernambucanas que conseguiram obter reconhecimento nacional. Em 2003, a artista foi não menos que aclamada pela crítica durante sua exposição individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Atualmente, suas aquarelas com predomínio de verdes, vermelhos e laranjas, suas telas, seus desenhos surreais em bico de pena, podem ser encontrados nos principais acervos museais brasileiros.

Guita Charifker constitui, ainda, a representação máxima do que se poderia chamar de sincretismo judaico-nordestino, alinhavando elementos da sua infância ao admirável mundo novo do regionalismo tropical. É notável a infinidade de signos e elementos místicos ou religiosos presentes em sua obra, inclusive os de matriz africana e indígena. São cartas de tarô, tatus, búzios, santos, paisagens nordestinas povoadas de cajueiros e plantas. A artista chegaria mesmo a passar um bom período da vida recolhida a um convento de freiras.

Nascida em 1936, teve a infância e adolescência vividas no bairro da Boa Vista, epicentro de tudo o que se produzia em termos de arte e literatura no Recife. Após se casar com Júlio Charifker (seu nome de solteira era Guita Greiber), mudou-se para a Rua do Sossego, onde instalou seu ateliê de trabalho na garagem de casa. Após alguns anos, transferiu-se para Olinda, à procura de um ambiente mais inspirador para seus quadros. Antes disso, na década de cinquenta, frequentou o Atelier Coletivo, sob a batuta de Abelardo da Hora e tendo como colegas, Zé Claudio, Gilvan Samico, Wilton de Souza e Wellington Virgulino, dentre tantos jovens artistas que viriam simplesmente revolucionar a arte pernambucana.

Guita Charifker considerava-se uma descendente de Branca Dias da Paraíba, ou mesmo sua reencarnação. Um alter ego muito bem pinçado por uma mulher que em pleno século 20 teve a mesma ousadia daquela que, trezentos anos antes, enfrentara a fogueira da Inquisição para não trair seus ideais. Pois esta mulher ousada, esta artista incomum, a mocinha de tranças que passeava às tardes na Praça do Derby com uma multidão de amigas, nossa Branca, atendeu ao convite dos céus e eternizou-se nesta sexta-feira, véspera do shabat. Em credos distintos, em línguas diversas, em corações sinceros, será para sempre festejada.

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