EDITORIAL » Até moribundos são alvos de ódio

Publicação: 04/02/2017 03:00

O Brasil está se tornando especialista em mostrar, com requintes de brutalidade, que decidiu ignorar de vez o bom senso e a ética. O caso da ex-primeira-dama Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula da Silva, dada como morta nesta sexta-feira, é emblemático. Desde a internação, quando a notícia atraiu para a porta do Hospital Sírio-Libanês manifestantes dispostos a hostilizá-la da forma mais odiosa, não restou mais dúvidas de que existe no país uma tendência à desumanização, enormemente reforçada pelas redes sociais. O ódio que se destila na “vida real” tem, sim, forte componente da virulência nascida no ambiente virtual, onde as boas regras da convivência democrática são violadas e violentadas o tempo inteiro como se fossem incompatíveis com a natureza daquelas plataformas. Em tese, elas deveriam funcionar como uma tribuna para a defesa de causas fundamentais, mas, infelizmente, não estamos falando de uma nação razoavelmente educada para tanto. Falta-nos a consciência de que um país melhor só é possível a partir de atitudes cidadãs, bem diferentes daquelas direcionadas a uma pessoa doente e, portanto, indefesa em todos os sentidos.

Parte da imprensa, aquela mais preocupada em combater a onda de ódio que pode, de uma hora para outra, transformar pessoas em alvo político a ser abatido a qualquer custo, entendeu as hostilidades dirigidas a Marisa Letícia como “ódio de classe”, por ela ter sido babá e chegado a primeira-dama do país. Outra, como a forma mais eficaz de atingir o ex-presidente Lula, sobre quem recai as maiores críticas pelo recrudescimento da corrupção no Brasil. Mas não importam as razões e sim os efeitos, que remetem à ideia da existência de uma doença social para a qual não se enxerga remédio a médio prazo.

É preciso, primeiro, se reconhecer doente para buscar tratamento, o que parece pouco provável numa sociedade levada a confundir a luta por transformação com uma chance única de praticar a filosofia do “olho por olho, dente por dente”, cujo resultado todos têm visto no dia a dia: violência sem precedentes, com consequências gravíssimas. Agora, não se trata de admitir os excessos contra a ex-primeira-dama e sua família, mas que é preciso reinventar o diálogo, o debate, a democracia. Sem isto, o Brasil não renasce.

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