Nome para não ser esquecido

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 03/02/2017 03:00

O nome é iluminado. Logo na primeira sílaba traz: Luz. Luzilá Gonçalves Ferreira, escritora, pesquisadora, nos círculos e festivais literários, Bienais do Livro em Pernambuco e fora do estado. Mestra como a palavra sugere, é professora da UFPE. É vice, ao lado da atuante presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli. Colunista semanal em Letras ás Terças, no Diario de Pernambuco, de onde registra acontecimentos literários, divulga poetas e escritores. Em noite de autógrafos do livro já esgotado Muito além do corpo, o professor e filósofo Lourival de Holanda fez a apresentação com aplausos. Marcus Accioly, o querido amigo, festejado com o seu livro Nordestinados, cantado em prosa e verso, pelas violas por violeiro.

Em comentário mais recente na coluna Letras às Terças, traz a figura doce e generosa da poeta Celina de Holanda: o modo como acolhia os amigos (“Venham de onde vierem ponho a mesa”) Mauro Mota, participou da mesa posta de Celina de Holanda, com o poema dedicado à nossa filha Teresa Alexandrina. Luzilá Gonçalves lembra o amor de Mauro Mota pelo Recife, em 22/11/2016, há 32 anos de sua morte. Lembra o paisagista Abelardo Rodrigues, o maior colecionador de arte sacra de jardins por ele construídos em BR do estado. Apesar da relutância em permanecer inédito, o padre Daniel Lima, nosso mestre, venceu a persistência da nossa amiga Luzilá em editar pela Cepe o seu 1º livro: Poemas, com textos dos professores seus amigos Lourival Holanda e Zeferino Rocha. Luzilá Gonçalves Ferreira, com a sua eficiente coluna Letras as Terças, faz a diferença.

No Diario de Pernambuco, de 1948 a 1959, Mauro Mota criou e dirigiu o Suplemento Literário, de grande circulação pelo Nordeste. Do Maranhão, publicou Ferreira Gular e José Sarney, ainda sem eco na literatura. Entre escritores daqui e de outros estados, por reconhecimento e amizade, tomaram-nos por compadres padrinhos dos filhos: Tadeu Rocha, Nelson Saldanha, Haroldo Bruno, Nertan Macedo, Cesar Leal, Ledo Ivo, Moacir de Albuquerque

Escrevendo diariamente a crônica: Peço a Palavra, no Diario de Pernambuco, Mauro Mota lembra do amigo José Augusto Guerra, do estado de Alagoas, ao ver o seu primeiro artigo publicado: “Foi como se a terra tivesse fugido dos meus pés, meu coração batia descompassado e eu fiquei lambendo a cria”.

Luzilá em suas pesquisas sobre a obra de Mauro Mota reuniu poesia, prosa, opúsculos, resultando no excelente estudo impresso no livro O Tempo sem Remédio na Farmácia, dedicado aos seus pais, Almerinda e Lupicínio.

Quando menina, Luzilá gostava de brincar de escrever. Começou com uma comédia encenada no quintal da sua bela casa de Garanhuns. Comenta que fazia o papel de empregada, com o rosto pintado a carvão. Os que assistiam riam muito e, ela de si mesma, vendo o seu rosto refletido no espelho. Quando mocinha estudava no colégio de freiras francesas. A partir dos 13, 14 anos começou a escrever, obtendo vários prêmios. Em 1981 publicou o seu primeiro livro pelas Edições Pirata: O Espaço do teu Rosto, dando sequência a outras publicações. A maioria dos jovens recorreram à Editora Pirata: Maurício Motta, com o livro Tudo em Família; Aroldo Bruno; Eduardo Motta, com livro Gaveta; Eduardo Diógenes, entre outros.

Luzilá, atendendo ao pedido dos amigos Sonia e Everardo Norões, editores do meu livro Janela, escreveu na página Ânimo Artístico: “O passado é aquela estação em que as coisas acontecem. Essas palavras de Jorge Luiz Borges, que cito de memória, me vieram à mente ao ler estas crônicas de Marly Mota”. Luzilá também nos emociona, quando fala dos reencontros com o seu mundo de evocações, das paisagens, das serras, das flores, da música do órgão que a mãe tocava na igreja, das viagens de trem. Entre outras lembranças, diz: “Reencontrá-las, é sempre um choque.” Veja-se Rachel de Queiroz, em qualquer assunto tem sempre a linguagem simples do sentir cearense interiorano.

Luzilá partilhou de um mundo rico que lhe dera asas à imaginação. A partir de 1982, os seus livros somam mais de trinta volumes, de sua autoria e coautoria, em editoras locais, brasileiras e estrangeiras.

Em época passada realizara o seu grande sonho: estudar e morar em Paris. Frequentar a Sorbonne, juntar-se a gente de todos os quadrantes da Terra, caminhando pelo Boulevard em abstrações, andar na Place de Vosges, ir a Rue Long-champs, 123, no elegante 16º Distrito. A bela casa de Raymonde e Cícero Dias, frequentada por Luzilá e por mim, em épocas diferentes. Excelentes cicerones, consagrados no poema de João Cabral: “Na Ilha antiga de São Luiz /que abre o Sena em Dois em Paris / Cícero ciceroneando todo amigo pernambucano.” O grande pintor pernambucano do Engenho Jundiá, com Raymonde e Luzilá, acolhidos com carinho em minha casa. Amigos para não serem esquecidos.

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