EDITORIAL » Monitoramento e prevenção

Publicação: 03/02/2017 03:00

O Brasil vive um surto de febre amarela silvestre sem precedentes. O total de óbitos suspeitos em Minas já chega a 128, sendo 51 comprovadamente causados pelo vírus este ano. O Distrito Federal teve seis casos suspeitos e o Entorno (região que congrega municípios vizinhos ao Distrito Federal) sofre com a falta da vacina. São Paulo, Goiás e Espírito Santo estão alertas. Um drama para as famílias e comunidades que lidam com as perdas provocadas pelo surto, mas, sobretudo, um problema de saúde pública. A área afetada pelo surto cresce a cada dia e já cobre sete unidades da Federação — a proximidade do carnaval aumenta o risco de a doença se espalhar.

Desde 2012, no entanto, todos os países das Américas com áreas em que a doença é detectada têm a vacina incorporada aos programas nacionais de imunização. Isso inclui o Brasil. Segundo a recomendação mais recente da Organização Mundial da Saúde, apenas uma dose inicial e um reforço são suficientes para imunizar o indivíduo por toda a vida.

A recomendação é vacinar apenas “as cidades e povoações em áreas de risco — assim como as pessoas que viajam para esses lugares”. Daí a extrema importância do monitoramento das mortes de macacos pela doença — que normalmente antecedem as infecções humanas — como forma de definir quais são as áreas de risco e disparar campanhas de vacinação.

O Ministério da Saúde monitora mortes de macacos fora do período habitual — de dezembro a maio — e emite alertas. Acontece que os alertas emitidos entre julho de 2014 e dezembro de 2016, relatando mortes atípicas de macacos no o Centro-Oeste, migrando para Minas e outros estados, foram ignorados. Não houve campanha de vacinação, e o resultado, até o momento, é que dezenas de pessoas perderam suas vidas por negligência.

O sistema de saúde pública criou um mecanismo eficiente de controle e prevenção da febre amarela silvestre para manter a vacinação apenas nas regiões de risco, mas ignorou os próprios alertas ou adotou medidas insuficientes para contê-la. Perda injustificável de vidas e de recursos, já que o montante investido na criação e manutenção do monitoramento dos animais não se converteu no resultado preventivo a que se destinava.

Importante ressaltar, ainda, que o pânico provocado pelas mortes também sobrecarrega o sistema, chegando a prejudicar, em alguns casos, o atendimento a pacientes com sintomas de outras doenças. O surto de 2017 é, acima de tudo, um alerta para a necessidade urgente de racionalização dos recursos já disponíveis e um recado claro de que a febre amarela deve ser tratada, ano após ano, como um perigo iminente.

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