Uma prestacão de contas pitoresca

Valéria Barbalho
Escritora

Publicação: 01/02/2017 03:00

No livro “Caruaru de Henrique Pinto: visão histórica e social - 1917/1920” de Nelson Barbalho (1981), há um balancete que me chamou a atenção. Seu autor, João Cursino da Silva, um grande benfeitor da Capital do Agreste, no século passado, era um homem honrado, trabalhador e um dos principais responsáveis pelo progresso sócio econômico da cidade. Próspero comerciante, proprietário da loja de tecidos “Casa Cursino”, João foi também presidente da União Caixeiral Caruaruense, diretor do Central Esporte Clube e o famoso gerente da Cooperativa Banco Popular de Caruaru. Comprometido com as causas sociais, ele apoiou o médico Adolfo Silva Filho na sua luta para a construção do Hospital São Sebastião e foi tesoureiro da Festa de N. S. da Conceição, o famoso folguedo de final de ano, do País de Caruaru dos velhos tempos.

Tornou-se folclórica a sua prestação de contas da festança de nove dias, de dezembro de 1919, publicada como matéria paga em página inteira, no jornal União. A seguir transcrevo, resumidamente, seu pitoresco balancete. A receita foi de 3 contos, 414 mil e 840 réis, arrecadados com doações de inúmeras pessoas. Para estimular a turma João Cursino encabeçou a lista, doando 100 mil réis. Nada adiantou, pois foi o único a doar tal quantia. As contribuições variaram de cinquenta mil até dois mil reis (citando-se o nome de cada doador e a quantia ofertada). Consta ainda 197 arrecadados no chá dançante, promovido pela União Caixeiral, e completava a soma indicada uns trocados conseguidos em feiras por uma comissão de jovens da sociedade.

Quanto as despesas, assim foram descritas: “134 gastos com cervejas e lanches para os músicos da Banda Comercial /15 gastos com vinhos finos para as cantoras do coro da igreja /35 de enfeites e arrumação do altar de N.S. da Conceição /42 de incenso, cera e flores para a capela /13 de um serviçal para mandados e repiques dos sinos /10 de “licença” para saída da procissão no Dia de Ano /650 de gratificações aos padres e acólitos /200 de gorjeta para as cantoras do coro /471 de fogos de artifícios, salvas e girândolas /700 de gastos com instalações externas de luz elétrica, coretos, barracas e ornamentação da Rua de Frente /150 de instalação elétrica interna da capela da Conceição /4 de despesas miúdas /14$.000 de impressão de cartões /500 de gratificação à orquestra do chá dançante /424 de gratificação à banda musical /20 de gorjeta aos empregados da Usina Elétrica para trabalharem até 5 da manhã e 30 para a publicação deste balancete.”

Bem, arrecadados 3.438 e gastos 3.414, sobraram 24. Então o honestíssimo tesoureiro publicou: “A comissão resolveu reverter o saldo de 24 em benefício da instituição São Vicente de Paula, e agradece penhoradamente a todos os que contribuíram com suas espórtulas para a festas realizadas em honra à Excelsa N.S. da Conceição, hipotecando a todos a sua mais sincera gratidão”. Nada mais era dito, nem tampouco questionado.

Como seria bom se todas as prestações de contas fossem transparentes como essa de João Cursino!

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.