Contra uma reforma da Previdência capenga e danosa

Humberto Costa
Senador e líder do PT no Senado

Publicação: 31/01/2017 03:00

Quando conseguiu condições de destituir do governo uma presidenta contra quem nada se provou, o aglomerado político-partidário que levou Michel Temer ao cargo sabia muito bem o que estava fazendo. As decisões tomadas pelo novo governo, mesmo ainda quando era interino, deixavam claro o que moveu o grupo: matar um projeto político e, em seu lugar, implantar outro, completamente oposto, que jamais seria aprovado pelas urnas. A reforma da Previdência, que se encontra tramitando no Congresso como a PEC 287 e que foi urdida pelos atuais ocupantes do poder sob inspiração das elites empresariais, é, com certeza, a face mais perversa desse projeto político. Porque não é apenas cruel. Porque é criminosa.

Ao mexer nas regras da Previdência como pretende fazer, Temer e seus asseclas atingem o cerne do que há de mais caro ao trabalhador brasileiro. Desfaz conquistas históricas. Elimina direitos consolidados. Destrói esperanças e mata sonhos. Sem voto e sem legitimidade, o governo arvora-se no papel de tirano e desfere um golpe, mais um, no peito e na alma dos brasileiros. Desde 1988, com a Constituição Cidadã, que o povo trabalhador vivia o presente e vislumbrava o mínimo de proteção no futuro. Hoje, as perspectivas são sombrias por conta de um modelo que penaliza o brasileiro, praticamente obrigando-o a trabalhar até morrer.

As mudanças impostas pelo projeto insano de Temer beiram o inacreditável. Os aumentos desmedidos da idade mínima para se aposentar e do tempo de contribuição para receber sua aposentadoria integral povoam de medo e revoltam os piores pesadelos dos nossos trabalhadores. São parâmetros sinistros que contrariam a lógica, a razão, o IBGE e seus indicadores, contrariam tudo. Impor a opção entre uma pensão e uma aposentadoria, ambos legalmente conquistados, denota maldade e sordidez. Desvincular salário mínimo do benefício e jogar a idade mínima para idosos receberem o BPC para 70 anos traduz desumanidade.

Todo o arsenal que o governo preparou para massacrar o trabalhador com esse monstrengo previdenciário tem a inspiração e a benção de quem não gosta de trabalhador. Tudo nasceu nos labirintos da Federação das Indústrias de São Paulo, a mesma entidade que foi a grande financiadora do golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff do governo. Vê-se agora que o preço do golpe é muito alto. O trabalhador, naturalmente, é quem paga o pato. O mesmo pato amarelo e sem graça que frequentava, representando a FIESP, os atos e manifestações pró-impeachment. Estava tudo muito bem amarrado, ao som de panelas e de apitos.

Essa reforma mambembe é atacada e condenada por qualquer instituição séria deste País. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a PEC 287 deixará 70% dos brasileiros fora da Previdência pública. Trata-se de um desmonte nunca visto. O que quer o presidente não eleito com esse projeto, além de entregar de mão beijada o País aos financiadores do golpe? Temer quer transformar o sistema público de aposentadoria em um penduricalho e dar força aos sistemas de previdência privada. Como ocorre em outras áreas. Como acontece com a educação, e a saúde, setores que outra PEC, a da Maldade, pretende deixar por 20 anos sem qualquer tipo de investimento do governo – ganham com o sucateamento dessas duas áreas o ensino privado e os planos de saúde.

Entendemos como nosso papel abrir essa discussão a todos os brasileiros. Afinal são eles os atingidos, os grandes prejudicados. Precisamos sair pelo Brasil afora alertando e abrindo os olhos da população. Nesta sexta-feira estamos trazendo a Pernambuco o ex-ministro Carlos Gabas. Vamos mostrar que, sobretudo em termos de Previdência, há muito que temer. Antes disso, há muito que lutar. É o que vamos fazer.

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