Academia destaca o romance de Andrea Ferraz

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 30/01/2017 03:00

Andrea Ferraz tentou frequentar a minha Oficina de Criação Literária várias vezes. Nem sempre estava disposta a cumprir as técnicas narrativas, convencida de que a inspiração resolve tudo. Escrevia e escrevia, trabalhava muito e parava. Queria escrever sobre o pai, o grande pai, mas preocupava-se muito com o documento, com o verdadeiro, com o real. Até para proteger a imagem querida. Com toda razão, é claro.

Eram textos bons? Eram. Nem se questionava. Mas faltava a luz interior. A luz que arrebata o leitor. Esta luz que os mais antigos chamam de duende e que se consegue com a sedução do leitor, com o arrebatamento da alma, com a chama do sangue.

Começou então a estudar as técnicas narrativas. A evitar os excessos de adjetivos e de advérbios – a transformá-los em cenas e, é claro, em ações, – a cortar os derramamentos líricos, a escolher os tempos verbais, a deixar a frase exata. Substituiu, então, a emoção nervosa pela emoção estética.

Ouviu mais, conversava com o orientador e os colegas escritores, entre eles, Paulo Cantarelli com quem dividiu angústias literárias. Tornou-se humilde diante da mais humilde das tarefas humanas: a arte. Despojou-se das vaidades e transformou a literatura numa “festa perpétua”, para usar a expressão clássica de Flaubert. Estudou clássicos e consagrados, desconstruiu romances, novela e contos. Compreendeu, enfim, que não tinha um estilo, e que o estilo é revelado pelos personagens e pela obra. Numa palavra: o estilo é a obra. Escreveu, então, A sutileza do sangue, o livro que prometeu ao pai, agora premiado pela APL.

Não é um gênio, mas uma autora consciente de suas possibilidades, pronta para voos mais altos, debruçada sobre a obra e os estudos. Uma artesã. O prêmio concedido pela Academia Pernambucana de Letras não a consagra definitivamente, ainda, mas prepara a estrada para grandes aventuras literárias. O que quero destacar aqui é que a humildade e o estudo podem levar o aspirante a escritor a construir obras de qualidade. Procurem e leiam A sutileza do sangue – Editora Coqueiro, Recife.

Destaco, ainda, que a premiação anual da Academia Pernambucana de Letras é um magnífico acontecimento literário. Até porque se trata de um acontecimento tradicional único no Brasil a premiar autores do porte de Gilberto Freyre, Ariano Suassuna e Gilvan Lemos, por exemplo.

Neste momento, a Academia é presidida pela jurista e desembargadora Margarida Cantarelli, que promove uma gestão de alta qualidade, depois da riquíssima administração de Fátima Quintas, a quem ficamos a dever a restauração do prédio da APL, entre outras coisas.

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