Dois lados de uma mesma moeda

Filipe Prohaska
Médico infectologista da Universidade de Pernambuco e Coordenador de Diagnósticos do Real Hospital Português

Publicação: 28/01/2017 03:00

Lembro quando ouvi falar pela primeira vez do trabalho da Capela Sistina. Aos doze anos de idade não conseguia formar um círculo com um compasso e perguntava aos meus pais qual seria a finalidade de aprender aquilo já que conseguia fazer círculos de tamanhos diferentes com várias moedas (eu era colecionador de moedas de todo o mundo). Meu pai riu e me mostrou o teto da Capela, dizendo que aquilo ali era obra de um homem só. As enciclopédias da nossa estante foram minha primeira parada, a Internet ainda era um embrião na mente de gênios reconhecidos décadas depois. Mas naquele momento dois gênios figuravam na minha mente e eram de séculos anteriores: papa Julius II e Michelangelo Buonarroti. Julius II entra na história de duas formas: o papa das artes e o da guerra. Iniciou as obras da Basílica de São Pedro além de financiar vários pintores da época. Seu temperamento era difícil e os conflitos eram constantes. Conseguiu retirar os Bórgias do poder político e religioso, enfrentou guerras para unificar a Itália, teve apoio dos Médicis em Florença... era um hábil estrategista porém encontrou um homem que apesar dos opostos era tão gênio como ele. Michelangelo apesar de jovem já era considerado o maior gênio da época, o Divino, como era conhecido. Já tinha feito sua obra prima Davi e preparava-se para obras como Móises e Pieta quando foi abordado pelo pontífice sobre o teto da Capela Sistina (esse nome vem do papa Sisto IV, tio de Julius II e quem construiu a capela). Michelangelo se dizia escultor e apesar de sua genialidade não se achava pintor suficiente para uma obra daquele porte. Os constantes conflitos e ameaças entre ele e o papa, assim como confiscar os mármores da região de Carrara forçou o florentino a aceitar a demanda. Iniciou com a pintura dos doze apóstolos e era auxiliado por pessoas contratadas pelo papa. Uma noite entra em surto psicótico e destrói a obra, fugindo para o Norte da Itália. Julius II fica furioso e manda seus homens a caçada, querendo o escultor vivo para ir à forca na sua presença. Há muitos mistérios sobre Michelangelo, não se sabia se era esquizofrênico (muitos gênios da arte tinham traços esquizoides. Freud tentou explicar a doença de Michelangelo baseado em suas obras quase três séculos depois) ou a intoxicação das tintas causava seus aparentes surtos. Durante a caçada, Michelangelo tem sua visão perfeita. Imagina toda a obra e se entrega aos homens do papa. Quando foi entregue ao representante de Deus, claramente irritado, explicou sua visão e convenceu o papa da grandiosidade por vir. Mas não queria ser atrapalhado, seria uma obra feita exclusivamente por ele. A obra foi feita no dobro do tempo com animosidades, discussões, dúvidas, inveja e rancor. Há quem diga que Michelangelo escondeu alguns sinais da Medicina (na criação do homem Deus vem dentro de algo com formato de cérebro “o livre arbítrio” e na criação de Eva ele tem formato de pulmão “o Sopro da Vida”) em suas pinturas apenas para irritar o papa.

Até para uma criança de doze anos é inacreditável imaginar como dois homens de objetivos e personalidades tão opostas, inimigos de nascimento e de ideias, conseguiram se juntar em um sonho único e realizar uma obra que mudou a humanidade por sua eternidade. Essa história deveria ser contada em todas as escolas para mostrar que o ser humano mesmo em dificuldades pode se juntar aos seus inimigos e realizar um feito notável. Deus nos deu o livre arbítrio: no Juízo Final os da direita de Cristo subirão e os da esquerda serão recebidos por Caronte e Minos, como mostra no altar da Capela mais famosa feito por Michelangelo após a morte do seu maior amigo e pior inimigo, o papa Julius II.

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