O Homem da Meia-Noite

Doris Gibson
Jornalista

Publicação: 28/01/2017 03:00

As crianças do Sítio Histórico de Olinda tinham (têm) permissão para ficarem acordadas depois da meia-noite duas vezes por ano: no Ano Novo e no Sábado de Zé Pereira.

As razões do “réveillon” (expressão francesa que significa “ficar acordado”) no Ano Novo são universais; as do Sábado de Zé Pereira, são uma exclusividade olindense. Só nós possuímos o Clube de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite, cuja incumbência é abrir a Folia de Momo em Olinda pontualmente à meia-noite.

Lembro perfeitamente, na minha infância, do frenesi da criançada que não parava de perguntar: “já deu meia-noite?” E do inusitado bom humor dos adultos, já contaminados pelo clima carnavalesco, respondendo pela enésima vez: “ainda não”.

Mas num belo momento a espera chegava ao seu fim pelo som do clarim solitário que se antecipava de quinze a vinte minutos ao cortejo, descendo pelas ladeiras, avisando aos moradores das ruas paralelas à do desfile que era hora de se achegar com suas famílias e suas cadeiras para, no nosso caso, acomodarmo-nos nas largas calçadas do Grupo Escolar Sigismundo Gonçalves, na avenida de mesmo nome, bem ali, na esquina com a 10 de Novembro, por onde o clarim acabara de descer.

A próxima atração fazia-se ouvir antes de ser vista pela batida dos cascos dos cavalos no calçamento: era a Cavalaria do Homem da Meia-Noite abrindo o cortejo, toda ajaezada e emplumada, descendo a ladeira lado a lado; visão das mais impressionantes.

Passado um bom intervalo, surgia lá no alto o primeiro carro alegórico: era o êxtase; o encantamento de cores e luzes embelezando as moças e os rapazes que compunham a alegoria, devidamente ataviados, realizando o sonho de consumo da juventude olindense.

Ao primeiro carro seguia o segundo, geralmente finalizando com o terceiro o desfile de alegoria e crítica, sempre sob  os comentários saudosistas dos mais antigos, insistindo em afirmar já terem visto o Clube desfilar com quatro ou mais carros alegóricos.

Intervalo.

Agora, sim: ELE; o próprio, o principal; distinto, elegante, cumprimentando a todos por onde passava e sendo respeitosamente reverenciado de volta; ele mesmo, com sua cartola, seu dente de ouro, “mamãe, sorrindo pra mim!”: O Homem da Meia-Noite !

Coração aos pulos, respiração suspensa... só um pouquinho. Porque logo atrás, a uma pequena distância, vinha a orquestra de cinquenta componentes, quatro tubas, rasgando um frevo enlouquecedor e aí ninguém segurava mais nada: caíamos no passo sem cerimônia, largando cadeiras e o que mais fosse para trás, acompanhando furiosamente O Homem da Meia-Noite até a saída do Varadouro, que naquele tempo era looooonge, que só!

Vale esclarecer que então, o Carnaval de Olinda era só para olindenses, que sabiam apreciar um desfile carnavalesco, assistindo a tudo com olhos de sonho, preservando o espaço necessário à arte dos nossos extraordinários músicos para, apenas atrás da orquestra, cair no passo e fazer a nossa parte de foliões inveterados.

No caso d’ O Homem da Meia-Noite incluía voltarmos dos confins do Varadouro bufando, suados, eufóricos, para recolhermos nossas cadeiras temporariamente abandonadas e irmos para casa dormir pois, logo mais às seis da manhã, era hora de corrermos espavoridos do Cariri que “lá vem aí/ com o saco de pegar criança”...   

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