Transnordestina e política de desenvolvimento estadual

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 28/01/2017 03:00

A Transnordestina foi anunciada como uma das obras estruturadoras do Nordeste há alguns anos e o início de sua construção animou muita gente na região. Em alguns municípios, como Salgueiro, vários foram os investimentos locais, como hotéis e expansão de comércio e restaurantes, para suprir demandas da obra. A ideia era que, ao seu término, os serviços prestados também demandariam essas novas instalações. A ferrovia interligaria regiões com potencial produtivo no interior do Nordeste, principalmente no Piauí, Ceará e Pernambuco, aos portos de Suape e Pecém, além de cortar esse último estado transversalmente. Por isso, ela seria fundamental para o seu desenvolvimento.

Infelizmente, a obra está parada. Erros, superficialidade e possivelmente outros problemas mais, levaram a uma expansão brutal dos custos envolvidos. Eles iniciaram na ordem de R$ 7,5 bilhões, mas foram crescendo ao longo da construção, tendo atingido gastos da ordem de R$ 6,3 bilhões, estando ainda longe de sua conclusão (somente 600 quilômetros de trilhos foram colocados, contra 1753 previstos). Estima-se que o custo total possa vir a atingir mais de R$ 11,2 bilhões. Ou seja, ela ficou fora de controle. Estrangulamento do orçamento federal levou à paralisação, mas esse descontrole de custos tem gerado dúvidas sobre sua viabilidade e por tal continuidade. Consequentemente, há um grande risco de ser uma obra abandonada, na qual R$ 6,3 bilhões foram desperdiçados e nada de benefício para a população tenha sido gerado. Obviamente, a suspensão temporária da obra causou grandes prejuízos a municípios como Salgueiro, que já se beneficiavam da construção. Em encontro recente o secretário de Parcerias de Investimentos, Moreira Franco, quando consultado, disse que a continuação da Transnordestina estava em análise por sua equipe. Há informações, contudo, que a avaliação dentro do quadro técnico é que essa ferrovia é economicamente inviável. Ou seja, a depender das avaliações técnicas vigentes a sua conclusão não ocorrerá, pois não conseguirá remunerar os recursos investidos. Pernambuco deverá então perder o acesso a essa infraestrutura que tanto benefício traria para o estado.

O momento, então, é para que o estado de Pernambuco tente uma solução para a continuação de sua construção. Talvez o estado possa propor ao governo federal reaver a Transnordestina e, junto com o Porto de Suape, repassá-la para uma estatal local a ser criada. Se ela vier sem custo, pode ser desenvolver todo um projeto de expansão no seu entorno para viabilizá-la após sua construção. Após as desapropriações e demais processos burocráticos necessários, poder-se-ia leiloar as ações dessa estatal para que ela seja conduzida pelo setor privado. Obviamente, o problema do financiamento teria que ser enfrentado ainda no momento em que empresa fosse estatal, provavelmente com captação externa. Apesar da dificuldade é possível e muito importante para Pernambuco. Dadas as dificuldades atuais em nossa economia, está na hora de se começar a pensar formas diferentes de promover o desenvolvimento. Aí o governo estadual encontra uma oportunidade para tal.

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