EDITORIAL » E a chuva, que não virá em 2017?

Publicação: 28/01/2017 03:00

Imagens e textos que tentam traduzir o drama da seca, por mais precisos, ficam muito distantes da realidade. É necessário vê-la de perto para avaliar o tamanho dos estragos que provoca na vida de 1,5 mil habitantes de 125 municípios em estado de emergência, segundo cálculo da Defesa Civil. Já são cinco anos sem chuva. Para agravar ainda mais o cenário, de acordo com o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal (GTPCS), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, deverá chover menos do que o esperado para a região Nordeste entre os meses de fevereiro e abril e os reservatórios podem não ter significativa recuperação durante o período chuvoso. Desde a divulgação do documento, que aponta para precipitações abaixo da média histórica, o alerta de risco acentuado soou: é possível que haja esgotamento da água armazenada em represas e açudes, no intervalo de novembro de 2017 a janeiro de 2018, não apenas em Pernambuco como nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

As más notícias sobre o rigor da estiagem saíram, também, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, deixando ainda mais claro o tamanho do desafio para governantes. Se dos 87 reservatórios existentes em Pernambuco, 47 já entraram em colapso (destes, 37 ficam no Sertão), a pergunta é como a população suportará viver sem chuva até dezembro – de acordo com as previsões do CPTEC – se nem mesmo o transporte regular de carros-pipa pode ser assegurado e se a baixa renda dificulta o acesso à água vendida ao preço médio de R$ 150, o caminhão. É preciso oferecer medidas de emergência que contemplem os mais atingidos, sob pena de o país assistir à repetição de cenas como as que marcaram a terrível seca de 1997/1999, no Nordeste, com 5 milhões de pessoas diretamente afetadas: saques a depósitos de comidas e veículos que transportavam alimentos. Nesta época, até o Recife sofreu, passando a receber água nas torneiras apenas uma vez por semana.

Surpreendentemente, especialistas dizem que o Nordeste brasileiro detém o maior volume de água represado em polos semiáridos do planeta, possuindo 37 milhões de metros cúbicos estocados em 70 mil represas. O problema seria a falta de políticas públicas coerentes de distribuição, agravada pelo inimigo mais poderoso do país – a corrupção –. que leva volume extraordinário de recursos indispensáveis ao atendimento das necessidades básicas das populações atingidas pelo flagelo. Já passa da hora de o Brasil mudar este jogo.

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