A condecoração do mal

Anco Márcio Tenório Vieira
Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE

Publicação: 27/01/2017 03:00

Entre 1950 e 1980 os grupos terroristas eram quase todos de extrema-esquerda (Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof, VAR-Palmares, IRA, ETA...) e, grosso modo, perseguiam dois objetivos. (1) Destruirem a “democracia burguesa” e a substituírem por uma “democracia proletária”; (2) promoverem o “Paraíso” na terra (mesmo que as sociedades objetos das suas empresas revolucionárias nunca terem sido consultadas se queriam ou não esse “Paraíso”). Como almejavam em futuro próximo colher os frutos dos seus atos, os atentados contra alvos civis ou militares eram realizados de um modo que eles, os terroristas, não colocassem em risco as suas vidas.

As décadas passaram, tombou o Muro de Berlim, o “paraíso” socialista, tal como se conheceu no século XX, sobreviveu em alguns raros países como uma caricatura de si mesmo, e hoje temos o inverso do que tínhamos nas últimas décadas do século passado: em quase totalidade, os terroristas são, agora, de extrema-direita (Al-Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haram, Talibã): fundamentalistas islâmicos que não se furtam em matar os próprios irmãos de fé e que proclamam um profundo desprezo pelo o humano e as suas diversidades socioculturais. Em comum com os terroristas do século XX: a crença no “Paraíso”. Com duas diferenças: (1) ao invés de ser apenas agente da ação, o homem-bomba é sujeito e também objeto dos atentados: em “solidariedade” às vítimas, ele se explode junto com os seus alvos; (2) o seu “Paraíso” não reside na terra, mas no além, e lá as suas ações serão recompensadas com o desfrute de dez mil virgens.

Ora, como combater quem se orgulha por renunciar ao seu próprio futuro, regozija-se por ser um homem-bomba, banaliza a sua própria morte (e também a dos seus semelhantes) e a transforma em um macabro espetáculo midiático? Ao combatê-lo, estamos a puni-lo ou a premiá-lo, já que a morte é o sal das suas ações? Por outro lado, como se explicar o grande número de jovens que acorre para esses grupos fundamentalistas? Por que tanta disponibilidade em se alinhar com o mal, e por que um número ainda maior de pessoas para defendê-los? Se eu não sou um fundamentalista e não desejo possuir dez mil virgens, o que espero de uma ideologia que subtrai o futuro e destrói a vida? Para alguns analistas, muitas dessas adesões se dão entre os que não conseguem construir vínculos afetivos (seja com a família, seja com amigos) e entre os que veem nessas “grandes utopias” um sentido para as suas vidas. No entanto, um grupo vem sendo esquecido: os psicopatas. São nos porões das ditaduras e nas organizações que banalizam o mal, que eles sempre encontraram a liberdade moral e ética para torturar, estuprar e matar. No caso específico do Brasil, ainda se encontra quem os elogiem no Parlamento e os condecorem pelos serviços prestados à “sociedade”.

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