Inferno dominical em Olinda

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 27/01/2017 03:00

Todo ano, é a mesma coisa em Olinda. Passado o réveillon, a cidade vive o clima de pré-carnaval. No entanto, não se trata de uma situação que os moradores do Sítio Histórico – invadido nos domingos que antecedem o carnaval por hordas de ignorantes do que seja a folia olindense genuína – delineiem do jeito que gostariam. Na verdade, a impressão que se tem é de que tal multidão, com as exceções de praxe, se constitui de algo como “rebanho sem pastor”, da imagem bíblica. Morador da Cidade Alta, vejo isso como um processo que se agrava a cada ano. Por exemplo, a barulheira impenitente, nos sábados e domingos à noite, proveniente de um palco que privatiza espaço público, perto do Fortim do Queijo – perto também da minha casa e do convento franciscano –, está cada vez pior. No domingo 22/1, à 0h30, por motivos inexplicáveis, até porque nada justificaria aquilo, houve uma estúpida explosão de fogos de artifício que me despertaram e fizeram pensar na desgraça que os moradores de Aleppo, na Síria, experimentaram em diversos momentos recentes. Durou, sei lá, meia hora. Fiquei sem conseguir dormir; minha mulher, Vera, também. E o som que os microfones berravam ali era a escória da música de pior qualidade do planeta (Aleppo, pelo contrário, possui bela tradição musical árabe, como a Muwashshah, uma forma de poesia andaluza cantada).

Que direito certas pessoas julgam que possuem para, atrás de lucros fáceis, incomodar toda uma comunidade? Não discordo de que cada um escute a música ou barulho que quiser. Nem me julgo na condição de impor meu gosto pelo canto gregoriano, Mozart, Bach, Mahler, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Capiba. Porém, aceitar que me forcem a ouvir esses sons de punk, funk, forró eletrônico, música baiana, etc. que agradam tanta gente por aí, é aceitar uma agressão cultural que me tira a alegria de viver. O mais condenável é que, além de invadir as casas das pessoas, impedindo-as de escutar o que gostariam, a música tocada acima de qualquer nível civilizado de som, maltrata pessoas doentes e idosas, agride crianças, ofende o direito ao silêncio quando se quer, e se precisa, dormir.

A barulheira é um dos capítulos do inferno de Olinda no período pré-carnavalesco, especialmente aos domingos. Além dele, há pelo menos mais dois que tiram a paz da cidade, estendendo-se também aos que a visitam: insegurança e atitudes desrespeitosas. Arrastões, assaltos, agressões acontecem de modo aterrador. O noticiário de TV registra isso, com pessoas correndo, gritando, desesperadas. Moradores se trancam em casa, assustam-se, ficam impossibilitados de exercer seu direito à mobilidade. Ao mesmo tempo, necessidades fisiológicas são feitas em locais abertos, de movimento de pessoas. Vai-se andando numa rua. De repente, esbarra-se em homens que urinam como se estivessem num mictório público. Uma atmosfera constrangedora cerca quem imagina que vive em um mundo de respeito a normas de convivência digna. Levar visitantes de outros países para uma circulada e encontrar essa situação de ofensa aos brios civilizados do mundo moderno incomoda muito. Em minhas andanças, pude testemunhar tal comportamento em Luanda (Angola) e outras cidades africanas, em La Paz e algumas cidades da América Latina; mas nunca testemunhei em Cambridge (Inglaterra), Roma, San Francisco (EUA), Melbourne, Irkutski (Rússia) ou Lisboa. Certamente, a realidade de Olinda que retrato é mais um dado para configurar o grau de atraso em que nos encontramos. Como reverter isso? A desejada repressão policial nos casos de violência óbvia não vai produzir efeitos de longo prazo. Mas ela é necessária para assegurar respeito aos direitos dos cidadãos que cumprem seus deveres.

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