EDITORIAL » Do discurso à prática

Publicação: 26/01/2017 03:00

O discurso populista e ultraprotecionista da campanha eleitoral de Donald Trump não foi blefe. Há seis dias à frente da Presidência dos Estados Unidos, ele tem convertido em ordens executivas as promessas de campanha, que afetam a economia interna e mundial, o meio ambiente, as relações com países de maioria muçulmana, os direitos individuais e o vizinho México.

Como adiantou, antes de chegar à Casa Branca, os EUA deixaram, na terça-feira, o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, que envolvia 12 países, exceto a China. Com a saída americana, o acerto está irremediavelmente comprometido. Os mais prejudicados são México, Peru e Chile. Em compensação, a medida poderá ser um estímulo ao Mercosul, liderado por Brasil e Argentina, e apressar os entendimentos entre os latinos e a União Europeia. A China, concorrente dos EUA, saiu fortalecida com a decisão. O próximo alvo é o Tratado do Livre Comércio da América do Norte (Nafta), entre EUA, Canadá e México, a fim de proteger a indústria norte-americana.

Trump, descrente das mudanças climáticas, é ameaça ao Acordo de Paris, que estabelece metas para a redução de emissão de gases de efeito estufa. Para ele, as restrições são prejudiciais aos americanos, pois submetem a indústria às exigências dos ambientalistas e reduzem a competitividade do setor produtivo. O temor de 194 nações se justifica. Ele autorizou a retomada das obras dos oledutos Keystone XL e Dakota Access, suspensas no governo Obama devido aos danos que representam à natureza.

A coerência com o discurso se expressa ainda por meio da suspensão de financiamento oficial das organizações que tratam do aborto, decisão que desconsidera a autodeterminação das mulheres e submete a vontade feminina a critérios patriarcais. No mesmo compasso, o primeiro ato de Trump foi determinar aos departamentos de governo a flexibilização do Obamacare, programa que garante assistência médica a mais de 18 milhões de americanos. Ele quer desconstruir o legado do antecessor, seja pela revogação da lei que o instituiu, seja pelo estímulo aos serviços privados de saúde.

A política de Trump para a migração sairá do papel. Ontem, ele autorizou a construção de muro na fronteira com o México. Prometeu vedar o ingresso de refugiados sírios no país e a concessão de vistos para cidadãos do Iraque, Irã, Líbia, Somália, Sudão e Iêmem, nos quais os muçulmanos são a maioria da população.

As canetadas de Trump reforçam a intolerância, prejudicam as relações comerciais entre os países, fomentam conflitos e impõem clima de insegurança global. São ações semelhantes às de republiquetas de banana. Desmerecem a maior potência do planeta, que é importante demais para brincar com interesses mundiais, construídos ao longo de décadas de diplomacia. 

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