A questão é: quanto tempo?

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 25/01/2017 03:00

Dizem que o tempo resolve tudo. Sobre isso, tenho muitas dúvidas. Acho que devemos estar muito atentos à passagem do tempo, porque o tempo trilha um caminho que, se passar muito tempo, pode se tornar um caminho sem volta.

Recentemente eu tive uma boa experiência com a passagem do tempo, mas nem sempre é assim. Reconciliei-me com um amigo querido, depois de quase dois anos de relação interrompida. E aí eu me perguntei: foi o tempo que nos reconciliou? Não, a passagem do tempo, necessariamente, influenciou a nossa reflexão e autocrítica, mas se não tivéssemos feito um movimento em direção ao outro, a passagem do tempo poderia ter estabelecido uma distância sem volta entre nós.

Faço essa introdução para refletir sobre a única boa notícia que saiu da política na semana passada:  em Davos, contradizendo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a diretora-geral Christine Lagarde afirmou que o FMI está revendo seus conceitos e passou a adotar uma postura crítica a políticas econômicas concentradas em austeridade fiscal e desconectadas de seus impactos sociais: “Não sei por que as pessoas não escutaram (que a desigualdade é nociva), mas, certamente, os economistas se revoltaram e disseram que não era problema deles. Inclusive na minha própria instituição, que agora se converteu para aceitar a importância da desigualdade social e a necessidade de estudá-la e promover políticas em resposta a ela”, disse a francesa, segundo relato da BBC.

O FMI está revendo seus conceitos que remontam à década de 90, a partir de quando as regras do “Consenso de Washington” foram usadas ao redor do mundo para consolidar o receituário de caráter neoliberal, e cujos críticos afirmam que levou à desestabilização econômica e ao aumento das desigualdades sociais na América Latina.

Foi o tempo que fez o FMI rever os seus conceitos? Na verdade, o tempo mostrou o caos impingido ao mundo pelas políticas econômicas concentradas em austeridade fiscal e desconectadas de seus impactos sociais. A  exclusão social promovida por essas políticas econômicas favoreceram o Brexit e o populismo nacionalista e conservador de Trump.

O tempo também mostrou um Brasil diferente quando, a partir de 2003, essa ideia de hoje do FMI, de aceitar a necessidade de estudar a desigualdade social e promover políticas em resposta a ela, já era implementada pelo nosso governo de então que conseguiu êxitos notáveis na diminuição da fome e das desigualdades sociais no país.

O nosso governo de hoje, entretanto, vai na contramão dos conceitos agora defendidos pelo FMI e estabelece uma política econômica concentrada em austeridade fiscal e claramente desconhecedora de qualquer preocupação com políticas de inclusão social.

O tempo resolve tudo? Acho que não. A questão é: quanto tempo o Brasil suportará esse atual governo, sem que esse mesmo governo venha a consolidar o perigo e a tentação de um populismo reacionário e autoritário entre nós? Pouco tempo. Muito pouco tempo. É por isso que já está mais que na hora de irromper o grito por Diretas Já!

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