A magia de labirintos

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 24/01/2017 03:00

A cidade convive há séculos com a ameaça da serpente que tem o poder de destruir a ilha e castigar seus habitantes. A ocasião, a forma, é incerta, não sabida, mas a lenda faz parte do imaginário, do risco de um cataclisma, tema da novela Labirintos, de Ubiratan Teixeira. Ele recria a versão da serpente, dos encantados e do Rei Dom Sebastião, com base na percepção do Pai de Santo Zé Negreiros, nos idos dos anos 1960.

Jornalista, teatrólogo, na narrativa o autor enfoca a cidade, a ilha de São Luís, como um grande palco, um cenário com uma cortina que vai se abrindo para um complexo drama. E surgem os personagens, os atores, a trama, que cresce com a força da narrativa, a Imagística e o humor que marca o ritmo da história. No relato, Zé Negreiros tem um prenúncio inquietante e tenta alertar a Igreja Católica e os evangélicos para purificar a ilha e evitar o despertar da serpente, encantada nos subterrâneos da ilha.

A antevisão de Negreiros – um temporal ou tremor de terra – desperta a reação de católicos, protestantes e agnósticos, pois o pai de santo - numa entrevista ao Jornal do Povo - faz alusão aos crimes e pecados de beatos e beatas, devotos e devotas impuras. A reação da Igreja é imediata, através da Associação das Filhas de Maria e da Sagrada Congregação das Devotas do Sacrossanto Lacre Virginal, ligadas ao prudente Arcebispo Dom Justus.

Em meio a dúvidas, ironias, a ilha é sacudida por um temporal, as águas inundam ruas e bairros, com danos para as famílias, o comércio e a indústria, fenômeno que leva Dom Justus a criar o Projeto Imaculadas. O projeto exige o sacrifício das devotas do Lacre Virginal, sob o comando do pai de santo Negreiros. A intenção não vinga e dá a dimensão do que existe de desvios de conduta religiosa, política e social em nossa sociedade e no mundo.

Em Labirintos, Ubiratan Teixeira usa a técnica do fazer jornalístico, da experiência como teatrólogo, com diálogos irreverentes, descrição de cenas visíveis e de bastidores, sem subterfúgios, que se ligam e formam um vasto painel do relato. No conjunto, a riqueza da pesquisa sobre religião e a visão lúcida do jornalismo, com crítica ao apelo a crimes, tragédias, invenções e mentiras; e da literatura, da arte, comprometidas com o real e a fantasia em defesa do humanismo e do amor.     

Enfim, Labirintos – obra editada em 2009 - é uma novela com magia, criatividade, graça e encanto, um belo texto ainda restrito a São Luis, ao Maranhão, que integra as “ilhas culturais” que enriquecem a ficção brasileira.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.