EDITORIAL » O mundo nunca quis tanto estar errado

Publicação: 23/01/2017 03:00

Enquanto a História caminha, vai semeando flores numa hora e noutras, arrancando o que plantou. É difícil esquecer o que foi a posse de Barack Obama, em 2009, como o primeiro negro a ocupar a Casa Branca. O mundo acompanhou com todo o interesse aquele que seria o maior evento público já realizado em Washington, porque tinha a impressão de que a partir dali estava-se inaugurando um novo tempo, onde o respeito aos direitos humanos se tornaria ainda mais largo e sólido. Entretanto, oito anos depois, o 20 de janeiro na capital do país nem de longe lembrava palavras como euforia, esperança e otimismo. Muito pelo contrário: na teoria e na prática, divisão foi o termo mais usado pelos jornalistas para traduzir o sentimento em Washington. Atos de vandalismo aconteceram antes e depois da posse, dando o tom do que serão os dias no mandato de Trump, enquanto os protestos reverberavam em muitas cidades do mundo.

Debaixo de chuva fina e sob uma temperatura de sete graus, os norte-americanos que foram para a frente do Capitólio assistir ao evento ouviram um novo presidente com discurso tão populista quanto nacionalista. Trump deixou claro que vai defender os interesses econômicos dos Estados Unidos a todo custo, protegendo a indústria nacional e os empregos dos compatriotas sob o lema “compre produtos americanos e empregue cidadãos americanos”. Não citou temas como respeito à democracia e aos direitos humanos, mas afirmou que deseja exterminar o terrorismo do mundo e garantiu que “o povo nunca mais vai ser ignorado”, depois de alfinetar a classe política à qual acusou de enriquecer em detrimento do trabalhador. A observação, feita de várias formas, ao longo do discurso, deve ter deixado no mínimo desconfortável a legião de ex-presidentes, deputados e senadores presentes à cerimônia.

Feito o juramento, a nave vai. No entanto, onde não há otimismo sobram críticas e dúvidas, o que já impregna o início do mandato de uma energia muito ruim. Grandes analistas políticos, renomados veículos de comunicação e humoristas que não poupam pessoas e assuntos de interesse de todos definem Trump, de 70 anos, como um “homem-bebê”, com desenvolvimento emocional correspondente ao de uma criança, pois age de forma impulsiva, é destemperado e narcisista. Se o perfil se confirmar no dia a dia da presidência, os EUA e o mundo viverão tempos difíceis; se surpreender, todos ganharão. A sorte foi lançada, mas o mundo nunca quis tanto estar errado.

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