Ocupações na UFPE: Engenharia x Filosofia

João Recena
Ex-aluno e ex-professor da Escola de Engenharia

Publicação: 21/01/2017 03:00

Durante as recentes ocupações da UFPE, os alunos de Engenharia rechaçaram o movimento. Preferiram continuar com as aulas e se formar. Enquanto isto, o prédio de Filosofia foi ocupado, teve salas depredadas e professores ameaçados. Com quem estaria a razão? O que é mesmo que os ocupantes queriam? Na realidade, os movimentos de ocupação têm uma grande dificuldade de expressão. Formam um coletivo, não têm liderança, não têm uma ideologia bem definida. Segundo Zizek, eles pressionam através do “violento silêncio de um novo começo”. A verdade é que, nem eles, nem nós, sabemos o que propor hoje em dia. Infelizmente, a constatação da depredação de Filosofia enviesou o debate. Os que promoveram a ocupação perderam a batalha da comunicação. Mas o assunto talvez não devesse ser esquecido. Por que será que existe gente disposta a ocupar a UFPE, a USP, Wall Sreet e o Estelita ou a se atirar à rua como em junho de 2013? Alguns pensadores de renome, como o próprio Zizek, o francês Badiou, o recém falecido Bauman e vários outros têm procurado analisar o tema e nos proporcionar alguma luz.

O principal motivo da insatisfação mobilizadora, segundo eles, é que o capitalismo democrático, opção hegemônica de organização da sociedade ocidental, tem produzido resultados abaixo da crítica. Desigualdade social, aquecimento global, corrupção, descrédito nos políticos, desrespeito às minorias, desemprego e falta de perspectiva para grande parcela da juventude estão entre as inúmeras mazelas apontadas, mesmo que nós reconheçamos que este regime tem seus méritos. Por exemplo, desmentindo Malthus, o capitalismo democrático instalou e faz funcionar uma máquina que alimenta bilhões de pessoas e ainda absorve a pressão de imigrantes que fogem de regimes bem piores. Os revoltosos do lado de cá, porém, querem mais. Querem, talvez sem perceber, escapar da ditadura da moeda, o único valor que restou depois de se decretar que “Deus é um cadáver”, que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” e que a família é um estorvo, uma usina de psicoses. Nesta mesma linha, denuncia-se que o homem médio tem um trabalho detestável, onde só lhe cabe “bater uma meta”, que se afasta dele como o horizonte se afasta de quem marcha em sua direção. Contam-se os minutos para encerrar o expediente, os dias para chegar ao final de semana e os meses para chegar às férias e, aí sim, fazer algo que, embora não o seja, parece interessante e ajuda a consumir a poupança amealhada durante os dias de trabalho.

Os revoltados, como já se disse, não têm uma alternativa clara. Aliás, hoje não há uma alternativa. Atingimos o fim da história. A frustração do sonho comunista deixou-nos órfãos de opções. A partir de agora, só teremos mais do mesmo, capitalismo e democracia parlamentar. E para se ter uma ideia da falta de prestígio deste regime, há pensadores que estão propondo que os parlamentares sejam escolhidos por sorteio, ao invés de eleições. Segundo eles, é impossível que o resultado seja pior. A falta de líderes não é primazia do Brasil, é generalizada. Aqui ou acolá surgem um Lula, um Obama ou um Francisco, que falam à alma do povo, promovendo a solidariedade através de algum programa social ou da pregação em favor da tolerância universal. Mas é muito pouco diante do que um Trump é capaz de fazer sozinho.

À medida que se comprime uma mola, cada nova deformação exige que se aplique uma força ainda maior. Em 1789, os franceses, fazendo o que ninguém previu que ia acontecer, encontraram o caminho, decapitaram os reis e puseram fim à monarquia absoluta. Qual será o novo passo? Qual será a nova revolução? A nos basearmos no experimento da mola, a próxima revolução deverá exigir maior pressão. Como ex-aluno e ex-professor eu senti um certo orgulho quando tomei conhecimento de que os alunos da Escola de Engenharia tinham preferido as aulas. Mas devo admitir que o pessoal de Filosofia, que tentou nos chamar a atenção para tanta iniquidade, também tem seu mérito. Mesmo que sejamos contra ocupações, ameaças e depredações, é bom que se dê algum ouvido ao “violento silêncio”, antes que outros reis, quem sabe nós mesmos, tenhamos que ser decapitados.

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