EDITORIAL » As incertezas com Trump

Publicação: 20/01/2017 03:00

O mundo passa a testemunhar, a partir de hoje, tempos de apreensão e incertezas, com a posse do republicano e ex-apresentador de tevê Donald Trump como o 45º presidente dos Estados Unidos da América, a mais poderosa potência global. Logo após o anúncio de sua vitória, ele já deixava a comunidade internacional e expressiva parte da população de seu país sobressaltadas com a confirmação de que cumpriria as controversas promessas de campanha. Trump vem reafirmando, principalmente por mensagens eletrônicas, sua personalidade violenta e imprevisível — alguns a classificam também como vingativa —, traços que podem interferir na condução harmoniosa de seu país e em relação com o mundo.

Trump reafirmou, entre outras coisas, que construirá um muro na fronteira com o México para barrar a entrada de imigrantes em território norte-americano, rasgará os acordos internacionais relativos ao controle do efeito estufa, incentivará a indústria de combustíveis fósseis e vai rever o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, assim como o acordo nuclear com o Irã. Em declarações consideradas intempestivas, também fez duras críticas a aliados históricos e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pedra angular da política externa dos EUA, após a Segunda Guerra Mundial.

Ao criticar a União Europeia (UE), a Otan e a política dos países europeus de acolhimento aos refugiados asiáticos e africanos, Trump escolhe o caminho do isolacionismo, ferindo de morte os compromissos fundamentais da ordem internacional que os EUA promoveram nas últimas décadas, sempre em defesa da democracia. Postura que exacerba nacionalismos ressurgentes na Europa que, no século passado, foram combustível para o florescimento de regimes totalitários e a consequente deflagração de duas guerras mundiais.

Numa total inversão de valores prevalecentes até então, ao responder a ataques de Trump à economia chinesa, o presidente da comunista China, Xi Jinping, saiu em defesa do livre comércio. O chefe do país, cuja economia é controlada pelo Estado, também criticou duramente o protecionismo prometido por seu colega norte-americano. E nesta semana, em pronunciamento na Organização das Nações Unidas (ONU), mandou um recado ao republicano de que os tempos de hegemonia de um só país é algo do passado.

No plano interno, Trump promete desmantelar uma das principais conquistas do antecessor, Barack Obama, o Obamacare, plano de saúde que beneficiou milhões de norte-americanos pobres. Se a promessa for concretizada, pelo menos 18 milhões de pessoas ficarão sem plano de saúde até 2018. Ainda internamente, Trump garante promover a deportação em massa de imigrantes ilegais, o que pode atingir os brasileiros que vivem nos EUA.

Ao tomar posse como presidente com a maior rejeição da história — 44% contra 88% de Obama, em 2009 —, Donald Trump provoca graves incertezas no mundo, não pelas suas declarações incendiárias e inesperadas, mas pelo poder que terá nas mãos nos próximos quatro anos, como o comandante da nação mais poderosa do mundo. Impossível negar que, a cada movimento do gigante do Norte, o restante do planeta sofre algum reflexo. E a população mundial tem a esperança de que esses reflexos sejam positivos.

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