Atraso persistente do Brasil

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 20/01/2017 03:00

O Brasil possui fachada impactante de traços modernos, aparentando prosperidade. No entanto, a realidade por detrás desse véu não pode enganar. Passei os anos da minha adolescência estudando no Rio de Janeiro. Meu pai, em 1952, me internou no Colégio Nova Friburgo – um educandário-modelo da Fundação Getúlio Vargas –, onde fiz do admissão ao terceiro científico. Eu morava no interior de Pernambuco, na usina Frei Caneca, onde nascera e da qual meu pai era contador. A passagem dali para a capital federal representou um choque que me ensinou muitas coisas. Meu pai descendia de donos de engenho, tinha estudado em Garanhuns, quando meu avô ainda não fora golpeado duramente pela crise dos anos 1930. No fim de 1951, já com seis filhos – sou o mais velho –, ele me consultou se eu concordava em estudar no Rio. Gostei da idéia. Eu tinha 11 anos. Fui-me embora.

Em 1952, a proporção de analfabetos na população brasileira (50,6% dos maiores de 15 anos) era muito maior do que hoje (8,3%). Havia favelas no Rio, malandragem na Lapa. Mas se tinha impressão de segurança, além de que a cidade era alegre, divertida. Nos meus 13-14 anos de idade, andava em toda parte sem qualquer receio. Aproveitava para curtir tempos dourados. Ia ao Maracanã de bonde sem perda de tempo. Nunca presenciei atos violentos no estádio, fora dele ou em ocasiões comuns. Nunca encontrei alguém que houvesse sido assaltado. A garotada não tomava drogas. Namorava numa boa, sob severas restrições dos pais das meninas, talvez por isso frequentando bordéis – que não eram tão sórdidos quanto se imagina. Na minha família, não havia plano de saúde. Todavia, ninguém nunca ficou sem a melhor assistência médica possível. Meu pai só ia aos melhores clínicos do Recife – como Altino Ventura, para os olhos, ou Waldir Cavalcanti, para nariz, ouvido e garganta. Nada parecido com as agruras de hoje para quem tem bons planos de saúde e luta para obter serviços à altura do que espera.

Francamente, olhando o panorama brasileiro atual, sinto que o contexto todo piorou. Na década de 50, para viajar ao Rio, dispunha-se de navio, avião, rodovias (ruins, é certo) e trem (era uma epopeia fazer a viagem por via férrea, mas existia essa possibilidade). Eu mesmo, indo para o colégio, viajei duas vezes de vapor – no italiano Comte Grande (em 1955) e no brasileiro Pedro II (em 1956). Também fui de ônibus, aí já em 1961, quando tinha voltado a residir em Pernambuco. Queria viver essa aventura – aventura mesmo, numa viagem de 6 dias, a única vez que usei ônibus entre o Recife e Rio. De trem, viajei em 1958 de São Paulo a Corumbá, com um colega de colégio. Fizemos baldeação em Bauru. Viagem formidável, de quase 3 dias. O segundo trem era lento. Mas existia o serviço. Hoje, não mais: evidência de retrocesso. Nosso meio de transporte nos anos 1940 e 1950 entre a usina e o Recife era só o trem. O Brasil optou nos anos 50 por um modelo com base no meio rodoviário, atendendo ao interesse das montadoras e das petroleiras. Não consegue retomar o trem. Para mim, mais sinal de atraso. Já a China, em 2006, começou a construir seu primeiro trem-bala. Alcançou hoje a marca de uma rede maior do que a da Europa, com trens que andam a 300 km por hora. Espera alcançar 11 mil km em 2020. E a Transnordestina – uma estrada de ferro pré-moderna, de via única? Começou a ser construída em 2007. Não dispõe agora sequer de 400 km. Que marca maior de atraso? Nesse ritmo, a ferrovia, que deve ter 1.500 km quando concluída, levará 25 anos para isso. Ou seja, temos que esperar o ano de 2042 chegar para inaugurá-la! Como estará então a sociedade brasileira?

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