O individualismo tecnológico

João Paulo S. de Siqueira
Advogado, mestre em Consumo e Desenvolvimento Social, professor e pesquisador-Capes.

Publicação: 19/01/2017 03:00

A individualidade, sob amplas e diversas perspectivas, já foi discutida por Platão, Hobbes, passando por Norbert Elias e Bauman. Evidente que não tenho a pretensão de colocar-me no mesmo patamar destes argumentos de autoridade, mas acredito que o tema merece algumas reflexões e ponderações.

É irrefutável a consciência e certeza que a tecnologia é algo fundamental e imprescindível em nossa realidade contemporânea, e uma de suas principais missões e virtudes seria a de aproximar as pessoas e agregar os indivíduos, mas superando o discurso e a aparência imediata do tema, será que é isso que vemos em nosso cotidiano? A internet e todas as possibilidades cibernéticas estão, de fato, socializando as pessoas, ou estamos cada dia mais individualizados, reclusos e blindados?

Todas as faixas etárias e segmentos sociais estão vivenciando uma epidemia da distração, onde o foco é o celular e não o mundo real no qual estamos inseridos e devemos viver e interagir. Apesar da ilicitude, é comum vermos motoristas usando celulares, em restaurantes, para muitos, é mais importante a qualidade da foto do que o sabor do prato ou a companhia de quem está sentado ao lado.

A sociedade do consumo, da qual somos membros, como atores e autores, nos impõe o estado de constante insatisfação, incluindo o uso da tecnologia, uma vez que somos também a principalmente consumidores de sensações e experiências. Há alguns anos, o Orkut supria nossas necessidades de comunicação e interação, de repente ficou obsoleto e surgiu o Facebook, que hoje não é mais suficiente, temos que ter o Instagram, Twitter, Snapchat, Whatsapp e outras possibilidades que logo serão lançadas, impostas e descartadas.

Todas essas ferramentas objetivam promover e facilitar a comunicação, como um intercâmbio de ideias e opiniões mas, dialética e contraditoriamente, as pessoas estão cada vez mais fechadas em suas bolhas customizadas por seus iphones, ipads, ipods, imacs, e esse prefixo inglês, coloca o “eu” como guia de nossas ações e comportamentos.

Sou partícipe e integrante da revolução tecnológica e mais uma vez reafirmo a essencialidade da tecnologia e todas as suas ferramentas, apenas suscito a necessidade de ponderação e racionalização no uso destas possibilidades. Não podemos e nem devemos simplesmente aderir sem questionar a real necessidade, a maneira e a intensidade de usarmos esses instrumentos.

Mais que teclar e olhar para uma tela, vamos olhar nos olhos, verbalizar nossos sentimentos, enfim, viver e construir o mundo real, vale a pena!

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