A importância do estudo da História e Cultura dos Povos Indígenas

Tiago Cesar
Coordenador do Mestrado em História da Unicap

Publicação: 17/01/2017 03:00

Em 10 de março de 2008 foi sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Lei 11.645, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino fundamental e médio, tanto da rede pública quanto da privada. De lá para cá, visando à capacitação dos futuros professores, disciplinas que atendessem à lei foram incorporadas paulatinamente às grades curriculares dos cursos de licenciatura, especialmente aos de História. Atualmente, ensinando a disciplina História e Cultura dos Povos Indígenas, na Universidade Católica de Pernambuco, não me restam dúvidas acerca da importância da lei e de seu impacto na sociedade, tendo em conta que só valorizamos realmente aquilo que conhecemos e nos identificamos (ao menos em parte). Apesar de uma bibliografia cada vez mais extensa, da revolução dos meios de comunicação, e da existência de povos indígenas bem próximos a nós, o alunado continua chegando com muita desinformação e carregado de visões estereotipadas. Esquece-se, às vezes completamente, que o projeto de conquista e colonização portuguesa só foi possível com a ajuda e o estabelecimento de alianças com muitos grupos ameríndios. Serviram de mão de obra indispensável para a construção e proteção dos núcleos de povoamento, da implementação de engenhos ao estabelecimento das lavouras de cana de açúcar e outros gêneros de consumo. Pajés atenderam a muitos cristãos e muitos europeus viveram seu paraíso terreal junto aos indígenas do Novo Mundo. É certo que houve extermínios, mas também etnias que resistiram ao longo dos séculos. Mas inclusive isso foi silenciado das grandes telas a óleo. E mesmo quando invisibilizados, já que se enalteceu o índio morto e fossilizado dos tempos coloniais, nunca deixaram de participar ativamente em guerras civis e na vida econômica, política e social brasileira. Tal invisibilização, sem embargo, é causada por vários fatores entre os quais está nossa tradição xenófoba, racista e hierarquizada de raiz europeia, mas particularmente ibérica. Embora centenas de homens e mulheres indígenas tenham servido como escravos e trabalhadores ao longo de nossa história, a pecha de preguiçosos persiste. Lembre-se que tiveram que ter sua humanidade reconhecida por meio de uma bula papal e por bastante tempo se desconsiderou (com raras exceções) sua cultura, crenças, costumes e formas de organização social. Eterno bom ou mau selvagem, passivo ou belicoso, em um ou em outro caso os povos indígenas continuaram sendo vistos como entraves à chamada “civilização brasileira”, assim como ao seu desenvolvimento econômico. Por certo, duplo entrave: primeiramente por sua cultura considerada incompatível com os valores ocidentais (societários, religiosos e capitalistas), e, em segundo lugar, pela posse de extensas áreas de terras, objeto de interesses e lutas seculares. Temos que parar de “brincar de índio” e ensinar a desconstruir estereótipos e preconceitos para que as gerações futuras entendam a importância vital (e não apenas simbólica) dos povos indígenas para a nossa sociedade. Sem esse esforço o reconhecimento dos mesmos permanecerá apenas no plano da formalidade, dificultando o apoio necessário e verdadeiro para o cumprimento e manutenção das garantias constitucionais e da consolidação de sua autonomia.

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