EDITORIAL » Torneiras secas

Publicação: 17/01/2017 03:00

Rico em recursos naturais, o Brasil desenvolveu a cultura do desperdício. A água serve de exemplo. Adultos e crianças sempre tiveram a sensação de que o líquido era infinito. Bastava abrir a torneira, e ele jorrava generosamente. Como nos edifícios a conta é coletiva, tinha-se a impressão de que, além de abundante, é gratuito. Pode ser desperdiçado em banhos longos, mangueiras fartas, lavagem de louça pródiga, escovação de dentes magnânima, descarga de cachoeira.

A crise hídrica não se deve apenas ao esbanjamento irresponsável. Alia-se à imprevidência do Estado. O governo sempre fechou os olhos para o comprometimento das nascentes e a poluição dos rios, transformados em lixeiras urbanas. Ali, além do esgoto, são jogados móveis, brinquedos, eletrodomésticos, garrafas, sacos plásticos, copos e embalagens descartáveis. Mais: fechou os olhos para fato que aumenta o consumo — o crescimento da população nas cidades.

Apesar de contar com 13% da água potável disponível no planeta, o país se encontra em situação desconfortável. Além de urbes nordestinas, São Paulo amargou corte. Agora é a vez do Distrito Federal. Quinze regiões administrativas abastecidas pelo Rio Descoberto sofrerão inédito racionamento — nada menos de 65% do DF. Três cidades começaram o rodízio — Riacho Fundo II, Ceilândia Oeste e Recando das Emas. Se São Pedro não colaborar, outras virão.

A realidade não deixa dúvidas. Será necessário, aqui e no resto do país, rever a governança dos recursos hídricos disponíveis. A crise que se repete ano após ano apaga a ilusão de que o Brasil está à margem da tragédia que atinge 750 milhões de pessoas no mundo. Não está. Precisa, por isso, trilhar o caminho da racionalidade – único capaz de atenuar os riscos da escassez plena.

Para que a gestão dos recursos hídricos tenha êxito, impõe-se, de um lado, mudar os hábitos do cidadão e, por outro, voltar a política ambiental para a preservação da flora e dos mananciais. Há que cumprir rigidamente a legislação. Punições brandas ou inexistentes estimulam a degradação do patrimônio natural com impactos danosos às nascentes e à proteção dos ecossistemas.

Campanhas educativas constantes devem figurar no planejamento governamental em todos os níveis. Setores organizados da sociedade devem se engajar com objetivo claro — reverter a preocupante situação enfrentada pelo país. Deve ficar claro que água não vem da torneira assim como o leite não vem da geladeira nem carne vem do freezer. 

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