Valores, progresso e esperança

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Publicação: 16/01/2017 03:00

Os filósofos do Iluminismo legaram-nos a concepção ocidental de progresso. Com bases em novidades poderosas. A Revolução Científica promovida por gente como Descartes, Galileu, Newton e Bacon. A Reforma Protestante. As descobertas das navegações. Já no Século XVII estava criado um ambiente em que o pensamento humano concentrava-se em entender as causas e efeitos dos fenômenos do mundo natural. Com base na observação e experimentação. Mas, ali, a humanidade também lançava-se o desafio de entender o real funcionamento da mente humana e sua natureza. A mente humana não seria guiada apenas pela antinomia razão vs paixão (instintos). A partir da observação racional da evolução dos povos, acrescentava-se a ideia de que a natureza humana tem uma congenial capacidade de empatia. De simpatizar com os semelhantes, de partilhar seus sentimentos. Gente como o Kant da Crítica da Razão Pura exortava ao exercício do juízo crítico. Dogmas da religião e das leis deveriam ser submetidos ao exame livre e público guiado pela razão. E nesse exame, descobria-se um ser complexo e contraditório. Capaz da destruição dos semelhantes e do mundo natural. Mas também capaz de solidariedade e de altruísmo. A crença ilimitada na força da razão atraiu ao Iluminismo a culpa por desastres como as guerras nacionalistas, Auschwitz, a opressão operária nas fábricas da revolução industrial, o racismo pseudocientífico e a devastação do meio-ambiente. Para gente como Horkheimer e Adorno, da Escola de Frankfurt, essas tragédias humanitárias teriam origem nas instituições e crenças do Iluminismo.

Nessa aventura do pensamento, alternam-se, pois, o otimismo e o ceticismo. Idas e vindas da aventura humana em direção ao progresso. O ‘espírito de cada tempo’ tende a maximizar conquistas ou retrocessos. A depender dos fatos do momento e dos postos de observação. Vivemos num desses momentos em que os fatos parecem dar razão aos céticos do potencial da razão para fomentar o progresso. Terrorismo, consumismo e intolerância parecem confirmar que, a despeito de tanto progresso, a humanidade segue prisioneira dos instintos negativos que levaram Hobbes a defender um Leviatã capaz de freá-los. A vitória de Trump nos EUA, com o voto ressentido e egoísta dos perdedores da globalização, é só uma degustação de sabor amargo. Mas a dialética dessa grande aventura logo produz a reação. Como a de Meryl Streep, insurgindo-se contra o mau exemplo do presidente eleito: “A pessoa que pediu para ocupar o posto mais alto do nosso país imitou um jornalista deficiente físico. Esse instinto de humilhar, quando vem de alguém com exposição pública, alguém poderoso, acaba permeando a vida de todo mundo, porque dá permissão para que outras pessoas façam o mesmo. (...). E quando os poderosos usam sua posição para fazer bullying, todos saem perdendo.” No que foi endossada pelo ator Robert de Niro e outras estrelas de Hollywood, como George Clooney e um grupo de 21 atores que fez circular uma interpretação da música I Will Survive. Gestos como esses renovam esperanças. Como o discurso de despedida de Obama proferido em Chicago no dia 11 p.p, quando ele nos relembrou de que os passos atrás que estão sendo dados não podem cancelar tantos avanços registrados nos seus 8 anos de governo. A política externa menos intervencionista e mais multilateralista. A inclusão de 20 milhões de americanos no sistema de saúde, a recuperação de uma economia que estava destroçada pela era Bush, o Acordo de Paris e a diminuição das emissões, os acordos do Irã e de Cuba, o casamento homossexual. Tudo isso foi possível porque pessoas guiadas por valores souberam escolher um líder que foi fiel a esses valores. Nas grandes decisões, mas também na micropolítica do comportamento decente e do bom exemplo dado por ele e sua família no quotidiano da vida na casa mais observada do planeta.

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