Universidade inclusiva e democrática

Anco Márcio Tenório Vieira
Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras (UFPE)

Publicação: 14/01/2017 03:00

Há um quase consenso entre a comunidade acadêmica que uma universidade democrática é uma universidade inclusiva. Na verdade, defender uma universidade democrática e inclusiva é uma redundância, pois nenhuma universidade pode ser chamada de democrática se ela não for inclusiva; do mesmo modo que uma universidade só pode ser chamada de inclusiva se ela estiver calçada em bases solidamente democráticas.

Mas falar em uma sociedade ou em uma instituição democrática significa falar do respeito pelo debate, pelo diálogo e pelo direito ao contraditório; pela promoção da cidadania e pelo fortalecimento do Estado de Direito; pelo respeito à orientação sexual, às diversidades étnicas, às crenças religiosas e às diversas formações socioculturais dos seus membros. Dizer uma sociedade ou uma instituição inclusiva é dizer que o seu sal, o seu tempero, é o pluralismo e o convívio enriquecedor entre mulheres e homens: indiferente da raça, da formação religiosa e sociocultural, das suas orientações ideológicas, políticas e de gênero.

No entanto, uma universidade inclusiva e democrática não é apenas uma instituição orgulhosa da sua multiculturalidade, que persiga a defesa e o respeito intransigente à livre expressão filosófica, política, religiosa, intelectual, artística e científica, mas uma instituição que sabe transformar o trigo e o fermento dessa multiculturalidade no pão da interculturalidade. E não existe interculturalidade sem que ela esteja calçada em uma cultura de diálogo entre as pessoas; na promoção do indivíduo que interroga sobre si e sobre o mundo; no sujeito que não se fecha em particularidades amorfas (homens, mulheres, gays, brancos, negros...), em reducionismos ideológicos, em teorias que defendem que raça, gênero e formação cultural é destino.

Sendo assim, é contraditório que uma instituição que se queira inclusiva e democrática encerre em seus quadros grupos que, na prática, agem como se a universidade fosse uma sociedade secreta de iniciados, firmada em estatutos e orientações ideológicas excludentes. E como tais sociedades, ela, a Universidade, seria antes um espaço da exclamação do que da interrogação; do sectarismo de ideias e comportamentos do que do respeito ao contraditório; das certezas absolutas (prima-irmã do reacionarismo) do que do debate que oxigena e promove o conhecimento. Nada mais contrário a uma universidade que se quer inclusiva e democrática do que grupos que, mergulhados em seu reacionarismo ideológico (sejam os fundamentalistas religiosos, sejam os suprematistas raciais e os fascistas políticos, à esquerda e à direita), se mostram indiferentes ao contraditório, ao debate e ao diálogo: alimentos da interculturalidade.

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