Mário Soares

João Bosco Tenório Galvão
Advogado

Publicação: 14/01/2017 03:00

Portugal era um País triste, de mulheres de preto por lutuosas e de homens sem sorrisos pois desesperançados. Era um País do sal e azar. Os portugueses riam com motivos brasileiros, ou sobre os brasileiros como motivos. O País fedia a batinas pretas, que assolavam as repartições salazaristas em buscas de soluções para seus pleitos eclesiásticos e mundanos. Os padres lobistas tinham poderes sob o céu e sobre a tirania. A Avenida da Liberdade, minha preferida em Lisboa, também era triste pois de liberdade só tinha o apelido. A censura moldava as artes, as escritas, as canções e corrompia o próprio fado. A ditadura vinha devorando seus próprios aliados, pelo assassinato, tortura e exílio dos melhores filhos e vocações portugueses. Portugal era fechado, seu horizonte era o próprio umbigo. Apesar da liberdade sufocada existiam os sonhadores, civis, militares e até eclesiásticos. Alguns presos, outros exilados, uns buscando seus sonhos na surdina, na clandestinidade. As canções e poemas libertários circulavam nos ouvidos dos portadores de esperanças e eram editados e proclamados nos quatro cantos do mundo. Ninguém, nenhuma ditadura, conseguiu até hoje exterminar os sonhadores e cancelar o futuro. Portugal, depois de décadas de obscurantismo, isolamento e tristezas, viu a luz chegar. Assistiu, com muita apreensão, o retorno da alegria, das cores nas vestimentas, do sumiço das batinas em suas repartições. Até as flores saíram dos campos em homenagem à liberdade. Na mais celebre Avenida de Lisboa os cravos vermelhos viraram símbolo da derrocada autoritária, e a revolução libertária tinha nome: era a dos Cravos. Os tanques com soldados revoltosos caroneavam os civis em suas incontidas alegrias. No final de abril de 1974 voltavam os exilados, voltava Mário Soares, um dos fundadores do Partido Socialista durante seu exílio. Portugal, como disse Sebastião Nery em um dos seus livros, dava um Salto no Escuro. Alguns extremistas de origem desconhecida, nos primeiros dias da Revolução dos Cravos, vendiam revistas pornográficas nas portas das igrejas de Lisboa, numa afronta à religiosidade da mulher portuguesa. As provocações eram diversas: invasões, ameaças, fechamento de estabelecimentos, como se fora da ditadura só fosse possível o caos. Enganaram-se os golpistas de todas as cepas. Mário Soares, um homem comum, destacou-se em determinar os rumos da Revolução Portuguesa. O homem comum que ele era passou a ser o Pai da Democracia Lusitana. Com obstinação se tornou um dos maiores de Portugal. Pois, como se diz em Lisboa, libertou a própria liberdade. Amigo do Brasil, e de modo especial de Pernambuco, aqui, casualmente, várias vezes estive com ele. No histórico Restaurante Leite e nas nossas livrarias. Algumas e poucas vezes nos dois restaurantes prediletos dele, o Gambrinus e o Bel Canto, ambos em Lisboa. Valeu a luta. Portugal respira liberdade e hoje é colorido em suas vestes, em seus poemas, em suas artes. Como Churchill e Ulisses Guimarães, perdeu, no auge de sua popularidade, uma eleição, e nesta semana seu funeral percorreu as ruas da Lisboa que tanto amava, sob os aplausos do mundo, pois já não era o menino do bairro de Campo Grande, era o cidadão comum que se converteu num dos heróis imortais da livre nação portuguesa.

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