EDITORIAL » Recado da China aos EUA apavora o mundo

Publicação: 14/01/2017 03:00

Por mais que o mundo tenda a relativizar riscos surgidos com as declarações intempestivas do próximo presidente dos Estados Unidos, ponderando que deverão ser suavizadas, depois da posse, o perigo existe e está se tornando mais claro a cada dia. Ontem, a preocupação aumentou com o aviso da China de que não está gostando nada da forma como Donald Trump tem se comportado em relação ao país, o que pode desencadear um “confronto devastador”. Os meios de comunicação oficiais foram bastante diretos quando se dirigiram ao futuro secretário de Estado Rex Tillerson mandando-o ter cuidado com as ameaças em relação a interesses de Pequim. Na quarta-feira, ao ser sabatinado por senadores para confirmação no cargo, Tillerson comparou a construção das sete ilhotas artificiais feitas pelos chineses, em água disputada por mais cinco países próximos, com a ocupação da Criméia pela Rússia. “Teremos de mandar um sinal claro à China no sentido de que, primeiramente, acabou-se a construção de ilhas e, em segundo lugar, o seu acesso a elas não será mais permitido”, disse o secretário, ampliando ainda mais o fosso diplomático entre os dois países.

Depois das declarações feitas no Senado, o editorial do jornal China Daily retratou bem a fúria do governo de Pequim, dizendo que, caso se materializassem, as hostilidades de Tillerson em relação à China cairiam muito mal, e não perdeu a oportunidade de colocar Trump numa situação vexatória aos olhos do mundo: “Esses comentários não merecem ser levados a sério, pois são uma mistura de ingenuidade, miopia, velhos preconceitos e fantasias políticas. Seria um desastre se ele decidisse adotar isso tudo no mundo real”. Literalmente, o veículo classifica o próximo responsável pela diplomacia dos EUA como pouco profissional e ignorante até mesmo no que diz respeito aos princípios básicos que orientam a relação bilateral entre os dois países. O texto afirma que caso os norte-americanos decidissem mesmo impedir o acesso às ilhas artificiais, “abririam caminho para um confronto devastador”.

Para entender melhor onde começa o estopim, os chineses reivindicam 90% do mar do sul da China, que tem tráfego marítimo gerando o equivalente a 5 bilhões de euros (cerca de 17 bilhões de reais) em mercadorias, além de estimadas riquezas naturais. Aí estaria a explicação para, nos últimos dois anos, o país ter acelerado a construção e instalação de equipamentos em sete ilhotas artificiais. Além de pistas de aterrissagem, haveria, segundo os EUA, sistemas de defesa que incluem lançadores de antimísseis. O que o governo Trump quer é fluxo livre para as rotas de comércio na região e, num cenário assim, tudo leva a crer que a apreensão do mundo faz todo sentido.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.